Características necessárias

Nada de cientista maluco! Veja qual o real perfil do físico!

 

Ciência para todos

O cientista quer que a sociedade dê valor à ciência, pois saber ciência é um direito do cidadão. Quer uma sociedade crítica e capaz de fazer escolhas. O cientista deve desenvolver a capacidade de explicar seu trabalho a qualquer pessoa. O grau de sofisticação muda, mas todas as pessoas podem e devem conhecer e entender o valor daquilo que é feito na ciência. O pesquisador deve administrar o seu tempo para que uma parte dos seus feitos contribua para tornar a nossa sociedade um pouco mais justa. E divulgar a ciência para o público em geral é uma boa maneira de fazer isso.

A palavra chave, nesse aspecto, é comunicação. Desenvolver a capacidade de comunicação em várias linguagens. A matemática é uma linguagem, assim como o português, o braille, a linguagem de sinais e o mandarim. São modos diferentes de descrever as coisas desse mundo. Se o estudante tiver uma formação boa em línguas – incluindo a matemática – e puder ler e compreender um texto, se comunicar de forma escrita, de forma oral e souber realmente usar as ferramentas de comunicação que estão disponíveis, ele estará em condições de fazer bem o seu trabalho. É como a condição física do jogador de futebol!

 

Habilidades intelectuais e técnicas

Para ser um profissional da física, é necessário interesse e habilidade para praticamente todas as matérias exatas, devido à sua aplicação em diversas outras áreas. Um físico tem que gostar de estudar, porque o cientista tem que estar lendo livros, lendo artigos, estudando o tempo todo. Ler é certamente uma maneira de descobrir muitas coisas, o que geralmente os cientistas fazem por gosto, não por obrigação. Alguns até se surpreendem por serem pagos para fazer o que tanto gostam…

Um aspecto fundamental é saber lidar com a informática, com o computador. Um físico, aliás, não trabalha mais sem um computador. Ele é hoje um instrumento como foram o microscópio e o telescópio, que trouxeram progressos tremendos à ciência. Com a democratização do acesso à informação promovida pela internet, os livros e os trabalhos científicos estão disponíveis a todos. Uma pessoa interessada e motivada tem acesso a muitas respostas no mesmo segundo em que faz uma pergunta. Mas atenção: é preciso ter disciplina para saber focalizar os problemas. Hoje, em ciência, mais importante do que trabalhar muito para conseguir uma resposta é fazer a pergunta certa. E ter a habilidade de juntar pedaços de informações para construir conhecimento. Além disso, o físico, assim como todo cientista, precisa ter conhecimentos de inglês.

 

Não se acomode, ouse!

O físico não pode se acomodar, ficar muito especializado e se isolar no seu “grupinho”. O perigo é acreditar que já conhece o caminho das pedras, sabe qual é o modelo de pesquisa que consegue financiamento e ficar repetindo esse modelo. Esse é um padrão de sucesso que traz consigo o germe da morte. As agências de financiamento ainda têm um olhar burocrático e a solução para o crescimento da nossa ciência em relação ao mundo não pode ser burocrática, tem que vir da comunidade científica. Porque com um padrão estabelecido, ninguém vai arriscar fazer o diferente. A ciência brasileira vai crescer, mas não vai ser o carro chefe de nada.

Alguns cientistas de destaque acreditam que o caminho é identificar os pesquisadores de talento e deixá-los fazer o que quiser, abrindo uma janela para que cientistas talentosos possam desenvolver livremente suas pesquisas, tendo de cinco a dez anos de financiamento, sem relatórios. Políticas simétricas não servem para problemas assimétricos. Para o Brasil sair do patamar em que está para outro mais acima, deve haver uma nova configuração.

Newton dizia que o conhecimento humano é como o raio de uma esfera: quanto mais aumenta, aumenta também a superfície em contato com o desconhecido. O físico é um navegador do desconhecido, tem que ter ousadia, ser movido pela curiosidade. Se você tiver vocação e quiser realmente se divertir e se apaixonar, então a física é a área ideal.

 

Não se conforme, veja além…

Uma característica importante num cientista é a rebeldia. Ele não deve se conformar com o conhecimento já adquirido. Precisa ter coragem de não acreditar no que está estabelecido e ao mesmo tempo ter confiança no que foi bem estabelecido. Então sua mente tem que estar sempre aberta e alerta – ninguém descobre o novo se atendo ao que é conhecido. Um físico não pode ter medo do desconhecido. Pelo contrário. O prazer de mergulhar num mistério costuma ser fora do comum para um físico. Ele olha seu objeto de interesse, vê além do que os olhos enxergam, duvida e mergulha no mistério para poder revelá-lo. Como ninguém disse que era impossível, ele vai lá e faz. É por isso que os físicos descobriram a mecânica quântica, indo procurar coisas além do que o olho era capaz de enxergar para ver se ali estavam os detalhes de que eles precisavam para entender as coisas.

 

Pré-requisito: gostar de mudanças

Algumas dessas características são desenvolvidas ao longo da carreira. O estudante não precisa chegar pronto, ele poderá desenvolver depois. Mas algumas delas são importantes de início: a curiosidade, certamente, e a paixão também.

Um candidato a físico tem que ter audácia, ausência de preconceitos, obsessão por enfrentar problemas e a curiosidade característica das mentes mais jovens. E paixão. Paixão pelo entendimento do mundo, pelo entendimento da natureza, paixão pelo que está fazendo.

O físico não pode ser burocrático, tem que gostar de uma vida tumultuada, pouco enquadrada, pouco ritmada, em que os dias se sucedem sem muita regularidade, sem muita rotina. Os problemas em que ele trabalha vão mudando, ele vai aprendendo coisas novas o tempo todo. Viaja para conferências e congressos nacionais e internacionais, onde entra em contato com novidades que podem acender uma fogueira em sua mente, iniciando uma nova linha de trabalho.

 

Reconhecimento e espírito de equipe

O físico não vive só de dinheiro, ele vive de reconhecimento. Gosta de ver seu trabalho sendo bem utilizado, seus feitos científicos se transformarem em bens públicos, em bens sociais. Melhor do que ganhar na loteria é alguém chegar e dizer: “O seu trabalho realmente marcou essa área de pesquisa”. Para poder viver desse reconhecimento, ele procura divulgar os seus trabalhos: a ciência evolui quando um cientista passa o que sabe para o outro que está chegando. Por isso, é importante publicar trabalhos: para compartilhar com os outros.

Esta, inclusive, é mais uma característica importante do físico: a vontade de ensinar, a vontade de transmitir, a vontade de despertar mentes da mesma maneira que a sua mente foi despertada. Isso garante a evolução. E ter espírito de equipe, característica típica não só da física, mas de toda a ciência. Na física não existem heróis, o que existe são equipes, porque os experimentos são muito complexos. Em pesquisas com partículas elementares, por exemplo, existem equipes internacionais com 10 mil pessoas atuando. Os trabalhos publicados não vêm com o nome de um “herói”, e sim com todos os nomes de um time muito complexo.

 

Resistência a frustrações

Às vezes, o caminho que um cientista escolhe não é necessariamente o mais adequado, então ele tem que desenvolver a arte de dar um passo atrás para poder dar dois à frente, retornar e começar de novo para poder ir adiante. Para alguns, isso é uma frustração, pois se investe tempo, esforço, energia e não dá em nada. A persistência é importante para todas as áreas cientificas, mas o físico em especial tem que entender que não sabe tudo e que todo momento é uma oportunidade para aprender. Administrar uma frustração significa entendê-la e tirar dali uma coisa positiva. Muitas vezes um fracasso ensina mais do que um sucesso.

Em alguns países em desenvolvimento, como no Brasil, houve uma grande evolução nos últimos anos em termos de apoio à ciência e tecnologia. Mas é frustrante para um pesquisador ver colegas no exterior com um apoio muito mais estável e forte do que o que recebe aqui, principalmente em relação à estrutura. No Brasil, o cientista tem que ser um pouco de artista de circo, fazer um pouco de tudo. Além de desenvolver os projetos de pesquisa e formar estudantes, tem que fazer o papel de secretário na organização dos documentos e relatórios, e de contador na prestação de contas, o que reduz o tempo para se dedicar à pesquisa. Nos países desenvolvidos, há uma divisão de trabalho mais estruturada, equipes mais completas. O pesquisador brasileiro precisa lutar para conseguir ter essas condições de trabalho.

 

Responsabilidade social

Todo cientista, num país como o nosso, tem que ter uma certa responsabilidade social. Ele pertence a uma classe privilegiada da sociedade, que conseguiu ter acesso ao ensino básico e ao superior, o que traz uma responsabilidade de atuar para que esses “privilégios” sejam estendidos ao maior número de brasileiros e brasileiras.

A pesquisa que fazem – e que é cara – é mantida pela sociedade. Ela é financiada pelos impostos pagos por todos nós, que se transformam em dinheiro público e vão para os laboratórios de pesquisa através das agências de fomento dos estados, dos municípios, do Ministério da Saúde, de Ciência e Tecnologia, entre outros. Nacionalmente, tem-se a Capes e o CNPq. Nos estados, têm-se as Fundações de Apoio à Pesquisa, as chamadas de Fap’s (Faperj, Fapesp, Fapemig, Fapeam, etc).

Então, os pesquisadores têm que dar um retorno para a sociedade – faz parte do trabalho do cientista atuar, também, na política cientifica e na política educacional. É importante que mais pessoas no Brasil possam ter uma escola primária decente, um ensino médio de qualidade e cursar uma boa universidade e pós-graduação, se assim quiserem. Todos nós devemos lutar para se construir uma educação de qualidade acessível a todos os brasileiros.