O que fazem

Os físicos podem trabalhar em centros de pesquisas físicas e de computação, em consultorias e assessorias técnicas e até no mercado financeiro. São bem sucedidos na administração e gestão de políticas públicas, justamente pela atitude e o prazer em resolver problemas.

 

Ensinar na escola básica

A formação de professores de ciências exatas de alto nível para o ensino médio e fundamental é uma necessidade estratégica para a qualificação da educação básica no Brasil. Alguns pesquisadores de grandes instituições de pesquisa inclusive dedicam parte de seu tempo a ministrar cursos de aperfeiçoamento e atualização para professores do ensino básico. A participação de cientistas no ensino médio é fundamental para formar um círculo virtuoso.

No Brasil, faltam, em média, 70 mil professores de física. Apenas 1/3 dos que se formam para dar aulas realmente o fazem, a maioria acaba indo trabalhar em outras áreas. Nesse ritmo, segundo depoimento do presidente da Capes, Jorge Guimarães, datado de 2008, serão necessários 84 anos para formar o número de professores de física necessários ao país.

O curso de licenciatura é requerido em todos os concursos públicos para cargos de ensino na educação básica em escolas públicas e privadas de ensino médio e fundamental, onde há um grande déficit de professores de ciências e matemática. Os educadores também podem atuar em centros educacionais, como os ligados ao Sistema “S”, composto por Sesc, Sesi, Senac e Senai, bem como planetários, centros de difusão, museus de ciência e cursos pré-vestibulares.

Na USP em São Carlos existe um curso diversificado, abrangente e transdisciplinar de licenciatura em ciências exatas. Nele são articulados conteúdos de física, química, matemática e biologia com práticas e teorias pedagógicas. O objetivo é formar um professor/profissional que reúna o domínio dos conteúdos científicos específicos com habilidades didáticas diferenciadas, além de uma forte visão humanista sobre a educação. Os formandos estarão habilitados a lecionar ciências ou matemática para o ensino fundamental e, conforme sua habilitação, também física, química ou matemática para o ensino médio.

Outra opção para os licenciados são os programas de mestrado e doutorado em áreas de ciência e educação. Essa opção abre oportunidades inclusive para a realização de pesquisas em universidade do exterior, com bolsas de estudo financiadas por agências públicas de fomento à ciência e tecnologia.

 

Boa dica para a sua formação

O Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro, é um dos institutos de pesquisa do Ministério da Ciência e Tecnologia. Seu principal objetivo é a investigação científica básica e o desenvolvimento de atividades acadêmicas de pós-graduação em física teórica e experimental. O CBPF fornece folhetos intitulados “Desafios da Ciência”, que apresentam temas da física explicados por cientistas brasileiros do mais alto nível, em termos simples. Eles descrevem, de forma interessante e compreensível para os jovens, como aquela área está sendo desenvolvida e, o mais importante, o que fazem. O problema é que explicar algumas coisas em ciência é realmente complexo. Nem todos os cientistas podem e são capazes de fazer isso.

O Programa de “Vocação Científica” é outra atividade de inclusão social pela ciência desenvolvido pelo CBPF. Ele tem o objetivo de acelerar e aprofundar a formação científica de estudantes de nível médio, despertando neles o interesse pela pesquisa e contribuindo para a escolha profissional do jovem estudante. O interessado passa por um processo de seleção na sua escola e por outro no CBPF. Se aprovado, o aluno é encaminhado a um orientador do CBPF que o introduzirá na pesquisa técnico-científica, mediante trabalhos e estudos supervisionados, que culminarão em uma apresentação pública um ano mais tarde.

O CBPF tem agora um laboratório especial para experiências de física de nível médio, para receber professores e alunos de escolas públicas. Oferece também cursos de educação continuada para professores de física experimental. A instituição recebe alunos de pós-graduação oriundos de todos os lugares no Brasil e da América Latina, com as mais variadas formações.

Duas habilitações

Os cursos superiores de física têm duas habilitações básicas: bacharelado e licenciatura.

bacharelado em física prepara o estudante para o trabalho em pesquisa e para o desenvolvimento de novas tecnologias. O estudante adquire o domínio dos métodos científicos, útil no cotidiano de qualquer ramo do conhecimento. Um físico pode trabalhar em centros de pesquisas e computação, dar consultorias e assessorias técnicas em diversas áreas da indústria, atuar na gestão de políticas públicas e mercado financeiro. Nas áreas de atuação você verá com mais detalhes o leque de opções, mas tenha sempre em mente que esse leque está em constante movimento, sendo constantemente ampliado pelo surgimento de novos nichos no mercado.

licenciatura plena habilita o físico a ser professor do ensino fundamental e médio. O licenciado também pode atuar na pesquisa de processos científico-pedagógicos relacionados ao ensino e à aprendizagem, elaborando propostas de currículos e programas para disciplinas do ensino básico nas diversas áreas de estudo da física. Os professores da licenciatura têm formação e pós-graduação em áreas ligadas à educação, pois há diversas disciplinas de conteúdo pedagógico. Com relação à parte específica da formação em física, a licenciatura é muito parecida com o bacharelado.

Ensinar na graduação e pós-graduação

Para dar aulas no ensino superior, é necessária uma formação continuada com um curso de pós-graduação stricto-sensu – mestrado e doutorado. O mesmo se aplica ao desenvolvimento da carreira de pesquisador. De forma geral, as universidades só contratam professores e pesquisadores que tenham, no mínimo, o grau de mestre.

É importante exercitar suas habilidades de professor tanto em disciplinas de início de graduação quanto em orientação de dissertações de mestrado e teses de doutorado. A adequação das grades curriculares às necessidades específicas de cada modalidade profissional é um desafio constante e dinâmico, visto que a realidade educacional, bem como a legislação que a regulamenta, sofre contínuas mudanças.

 

Evasão de estudantes de física: tenha calma!

O abandono ou troca de curso acontece em todas as áreas, mas na física é um problema grave pelo alto índice de ocorrência. O aluno que se interessa por entrar no curso de física tem um fascínio pela ciência, mas suas expectativas não são compatíveis com a realidade dos cursos de graduação, principalmente nos primeiros anos. A expansão do Universo, a astronomia, a curvatura do espaço tempo, a mecânica quântica, o emaranhamento quântico, como um átomo ou uma partícula pode funcionar ora como partícula ora como onda na mecânica quântica, o princípio da incerteza são aspectos fascinantes sobre a natureza que fazem parte do estudo de um profissional da física. Só que, ao ingressar em um curso de graduação, não é isso que o aluno encontra inicialmente.

Geralmente, no primeiro ano do curso, ocorre uma grande evasão, muitas vezes pela falta desta perspectiva. O aluno tem ânsia em conhecer a parte mais aplicada da física e não consegue manter-se motivado apenas estudando os aspectos básicos da ciência. O início do curso parece uma revisão do ensino médio, depois fica muito focado em matemática e física básica, e só então entra numa abordagem mais aplicada, mais tecnológica. O estudante que entrou na faculdade pensando em um emaranhamento quântico se decepciona com aulas sobre plano inclinado, queda de um corpo, coisas fundamentais que parecem totalmente distantes daquelas para as quais ele estava motivado.

É importante que o estudante de física perceba que, para entender as coisas complexas, ele vai precisar de uma base em matemática e física sem a qual não há como compreender, atuar e trilhar a ciência nessa área. E é justamente na hora de adquirir esse instrumental básico – que não é simples – que surge a desilusão, fazendo com que muitos abandonem o curso. Mas os professores e os formandos garantem: essa decisão na maior parte das vezes é precoce, basta ter um pouco de paciência até o terceiro ano, no máximo, porque então ele já terá adquirido as ferramentas e vai poder deslanchar no conhecimento.

Para reduzir esse sentimento de frustração do aluno iniciante, algumas faculdades apresentam aos calouros temas de fronteira, com disciplinas do tipo “Panorama da física contemporânea”. Dessa forma, eles enxergam uma conexão com os fenômenos aplicados, enquanto estudam cálculo pesado.

Iniciação científica

É recomendado, também, que os alunos desenvolvam projetos de pesquisa na área de seu interesse, orientados por um professor especialista. O quanto antes, melhor, pois isso o envolve e o motiva para enfrentar as primeiras etapas do curso. A iniciação científica também é interessante para que o aluno compreenda a importância que as matérias básicas têm para a sua formação final. Isso se dá não só pelo compromisso com o projeto, mas também pelo envolvimento com o professor, que vai lhe dar uma atenção especial. Isso vai ajudar o estudante a entender que ele está em um universo novo, e que o salto do conhecimento decorre da dedicação e do tempo investidos, com qualidade.

Não se acomode, ouse!

O perigo na carreira de qualquer cientista é acreditar que já conhece o caminho das pedras, ou seja, saber qual é o modelo de pesquisa que consegue financiamento e ficar acomodado, repetindo esse modelo. Esse é um padrão de sucesso que traz consigo o germe da morte. Porque repetindo o conhecido não se chega ao novo.

Alguns cientistas de destaque acreditam que o caminho é identificar os pesquisadores de talento e deixá-los fazer o que quiser, abrindo uma janela para que cientistas talentosos possam desenvolver livremente suas pesquisas, tendo de cinco a dez anos de financiamento, sem relatórios. Políticas simétricas não servem para problemas assimétricos. Para o Brasil sair do patamar em que está para outro mais acima, deve haver uma nova configuração.