Áreas de atuação

As áreas de atuação das ciências agrárias abrangem todos os aspectos da exploração da terra, dos cultivos vegetais e da criação animal. O profissional pode trabalhar em empresas, universidades e órgãos públicos. Pode haver também interação entre universidades e empresas: há diversos casos em que essas interações são bem sucedidas, mostrando que um trabalho feito na universidade pode se transformar num projeto de geração de valor para sociedade, através da criação de empresas que, por exemplo, possam contribuir para o aumento da produtividade e sustentabilidade agrícola. Existem muitas áreas promissoras no Brasil, como a biotecnologia, a aquacultura e piscicultura, silvicultura, bioenergia e alimentos.

A área dos biocombustíveis é promissora. O Brasil possui a vantagem de ser líder na tecnologia de produção do etanol a partir da cana-de-açúcar. Se o mundo passar a utilizar etanol misturado à gasolina no percentual padrão, isso representará uma quantidade de etanol três vezes maior do que é produzida hoje no mundo, o que geraria uma demanda imensa.

As ciências agrárias são multidisciplinares e aproveitam os conhecimentos de outras áreas, como a tecnologia da informação e comunicação, engenharia genética, genômica e proteômica, ecologia e climatologia, para aprimorar seus métodos. Com a valorização dos cuidados com o meio ambiente e o destaque dado aos procedimentos ecologicamente corretos, as possibilidades nas ciências agrárias se ampliaram muito, fazendo com que haja inúmeras opções de carreira. Isso praticamente garante que um jovem interessado na preservação do ambiente se entusiasme por alguma dessas áreas. O que costuma acontecer, atualmente, é que o estudante gosta de tanta coisa que não sabe o que escolher… então, deve pesquisar mais!

O surgimento da agroecologia coincide com uma maior preocupação da sociedade com a preservação dos recursos naturais. Recentemente, vem ganhando evidência a discussão sobre uma agricultura sustentável, que garanta a preservação do solo, dos recursos hídricos, da vida silvestre e dos ecossistemas naturais e que, ao mesmo tempo, garanta a segurança alimentar.

Outra questão importante levantada nessa área é a integração harmônica de conceitos das ciências naturais com os das ciências sociais. Integração essa que permite nosso entendimento acerca da agroecologia como ciência dedicada ao estudo das relações produtivas entre homem-natureza, visando sempre à sustentabilidade ecológica, econômica, social, cultural, política e ética.

A proposta agroecológica para sistemas de produção agropecuária impõe certas diretrizes ao agronegócio, por condenar a produção centrada na monocultura, na dependência de insumos químicos e na alta mecanização, além da concentração de terras produtivas, a exploração do trabalhador rural e o consumo não local da respectiva produção.

As práticas agroecológicas se baseiam na pequena propriedade, na mão de obra familiar, em sistemas produtivos complexos e diversos, adaptados às condições locais e em redes regionais de produção e distribuição de alimentos. Ou seja, as práticas agroecológicas podem ser vistas como práticas de resistência da agricultura familiar ao processo de exclusão do meio rural e homogeneização das paisagens de cultivo. É uma abordagem da agricultura que se baseia nas dinâmicas da natureza. Dentro delas, destaca-se a sucessão natural, a qual permite que se restaure a fertilidade do solo sem o uso de fertilizantes minerais e que se cultive sem uso de agrotóxicos. Envolve a agricultura orgânica, a biodinâmica natural, a agrofloresta, a permacultura, entre outros temas.

Agronomia

As pesquisas agronômicas, mais que as de outros campos, estão fortemente relacionadas ao local em que são realizadas. Fato semelhante ocorre com as técnicas derivadas dessas pesquisas. Assim, esse campo pode ser considerado uma ciência de ecorregiões, porque está ligada a características locais de solo e clima que nunca são exatamente iguais nos diferentes lugares geográficos.

Os sistemas agrícolas de produção devem levar em conta características como clima, local, solo e variedades de plantas e animais de produção que precisam ser estudados em nível local. Alguns pesquiadores consideram necessário entender os sistemas de produção de uma forma generalizada, de maneira que o conhecimento obtido possa ser aplicado ao maior número de locais possíveis. A Agronomia se integra às atividades rurais, abarcando horticultura, zootecnia, engenharia rural, economia agrícola, sociologia rural, antropologia rural, ecologia agrícola, etc.

Muitos cientistas proeminentes que atuam na área têm procurado entender como é possível tratar melhor o solo, de modo que ele não emita tantos gases de efeito estufa, preservando a biodiversidade e o sistema nativo. Nesse sentido, eles buscam atuar nas questões ambientais e encontram essa possibilidade na agronomia.

Alguns cientistas consideram que toda a questão das mudanças climáticas globais tem origem no processo de mudança dos sistemas nativos para os sistemas agrícolas, que seria uma das principais causas do aquecimento global, desde os tempos da industrialização europeia. Há linhas de pesquisa sobre a gênese do solo: como ele se originou, como evoluiu e como o clima influencia os solos no Brasil. Em uma dessas pesquisas, descobriu-se que ao desmatar uma área implantando uma cultura artificial, ocorre transferência de CO2 (gás carbônico) da atmosfera para o solo. A pesquisa evoluiu para a análise da Amazônia brasileira e para outros ecossistemas como o cerrado, a caatinga e os pampas, dando origem a diversos trabalhos científicos publicados no Brasil e no exterior.

Temos que aprender com os erros de outros países, não fazendo o mesmo, conservando o carbono no solo para que ele não vá para a atmosfera e cause o aquecimento global, mudando os ecossistemas. Essa mudança traz diversos problemas para a saúde humana e para a distribuição de água, por exemplo. Há otimismo quanto às perspectivas no Brasil, mas é importante saber que os avanços científicos não cairão do céu. Cada cientista deve fazer sua parte, estudando muito para desenvolver tecnologias adequadas a cada ecorregião.

Aquacultura

Aquacultura ou aquicultura é o cultivo de organismos aquáticos, incluindo peixes, moluscos, crustáceos, anfíbios e plantas aquáticas para uso do homem. Já a maricultura refere-se especificamente à aquicultura marinha, enquanto a piscicultura refere-se ao cultivo de peixes, principalmente os de água doce. A carcinicultura, por sua vez, é a criação de camarões.

No Brasil, a maior parte das atividades relacionadas ocorre em propriedades rurais comuns. Na maioria, essas fazendas são dotadas de açudes ou represas.

A atividade agropecuária normal de uma fazenda produz quantidades variáveis de subprodutos que, de maneira geral, não são aproveitados, embora tenham potencial para ser transformados em proteínas que os peixes em cativeiro aproveitam integralmente.

Utilizando pouca mão de obra, a piscicultura nos açudes e represas não conflita com as demais atividades desenvolvidas numa fazenda. Pelo contrário, é um complemento muito proveitoso, dado que tem a característica básica de reciclar subprodutos e resíduos, transformando-os em proteína animal.

No Brasil, as espécies de valor comercial não se reproduzem em tanques. São as chamadas espécies de piracema, que dependem da injeção de hormônios naturais e sintéticos para a reprodução. Essa técnica, antiga e descoberta por brasileiros, tem se popularizado rapidamente.

O desenvolvimento da piscicultura brasileira teve por base as espécies exóticas que se reproduzem em tanques e permitem o cultivo controlado. A migração da base de produção para as espécies de piracema é relativamente recente, sendo posterior à década de 1970.

A inserção de espécies de peixes carnívoras é benéfica para melhorar a qualidade do peixe obtido, que cresce mais em menos tempo. No entanto, a inserção deve ser feita com muito cuidado, pois pode causar sérios problemas ecológicos caso haja fugas das espécies carnívoras para os rios locais.

A adubação das águas é um dos aspectos mais importantes da criação de peixes em cativeiro. Pode ser feito de várias maneiras. Se for possível, as águas usadas para lavar estábulos e pocilgas devem ser levadas para os açudes, desde que não causem poluição do meio aquático por excesso de volume.

Sua presença em pequenas quantidades propiciará o incremento da produção natural de plâncton (microrganismos que vivem no ambiente aquático). Além de fertilizarem a água, os estercos são também diretamente ingeridos pelos peixes. De uma maneira geral, pode-se usar o esterco de curral na proporção de duas toneladas por hectare, duas vezes ao ano.

Portanto, as propriedades agrícolas providas de açudes apresentam um potencial bastante grande para a produção perene de peixe de alta qualidade e a baixo custo.

Biotecnologia

A Biotecnologia é um dos campos em que a pesquisa científica tem tido mais avanços. Combina genética, biologia molecular, bioquímica, embriologia e biologia celular com a engenharia química, tecnologia da informação, robótica, bioética e o biodireito, entre outras. Lida com a manipulação genética e os processos biológicos naturais que podem ser usados para aumentar a produtividade agrícola.

Nas ciências agrárias, sua principal função é a genômica transgênica, além do melhoramento clássico ou tradicional. As pesquisas desenvolvidas na área não giram apenas em torno das mudanças genéticas nas plantas. Há grande potencial, ainda não suficientemente explorado, das técnicas chamadas “convencionais”, em especial a seleção.

Como exemplo, temos o feijão Nuña, desenvolvido pelos incas que viviam a 3 mil metros de altitude. Sua única fonte de proteína era o feijão, cujo maior problema é o cozimento lento, que requer muita energia. Não havia florestas, portanto não havia lenha para o cozimento. Por seleção, desenvolveram uma variedade de feijão chamada Nuña, que com dois minutos de aquecimento fica cozido e se torna comestível.

Hoje, é evidente o uso majoritário da transgenia. Foram bem sucedidas manipulações do milho através da genética clássica, que levaram à diminuição da altura das plantas e do tamanho do pendão, que faziam com que os pés se quebrassem com o vento, assim como levaram ao desenvolvimento de plantas que dão duas espigas ou mais, em vez de apenas uma, visando ao aumento da produção sem a expansão da área cultivada.

Apesar da eficiência da transgenia, é preciso diversificar as técnicas de modificação genética das plantas, que são as ferramentas da biotecnologia, com seus potenciais e limitações. Para maior sucesso nos programas de melhoramento genético das plantas, as técnicas tradicionais e as modernas devem ser empregadas de forma complementar, não sendo consideradas mutuamente excludentes.

Controle biológico

O controle biológico é uma técnica que utiliza meios naturais para diminuir a população de pragas. Uma das maneiras de promover essa erradicação de pragas é a inserção, em determinada área, de predadores naturais do inseto que causa danos às lavouras. O controle é feito por outro organismo (predador, parasita ou patógeno) que ataca a praga, podendo ser muito eficiente no seu controle e não causa danos cumulativos à lavoura ou aos inimigos naturais do alvo do controle. Essa área se relaciona muito com a Entomologia (estudo dos insetos).

O Baculovírus, existente na lagarta, que é a praga da soja, foi a base para o desenvolvimento de um produto biológico de combate. Foi montado um projeto com o objetivo de levar esse produto aos fazendeiros e empresários, visando reduzir o uso de produtos químicos, pois desde a década de 70 a utilização de inseticidas se ampliou. Mas foi difícil convencer os agricultores, pois um produto biológico tem que penetrar no organismo da praga para atingir a célula e se multiplicar. Isso leva muito mais tempo do que a ação de um inseticida. O produtor estava acostumado a aplicar um agrotóxico e ver a lagarta cair, enquanto que o produto biológico não tem essa capacidade. Ele atua lentamente, mas resolve o problema.

As técnicas de controle biológico têm sido usadas de forma instável. Como alguns produtores aplicavam inseticidas químicos cada vez mais cedo no ciclo da cultura, foi gerado um desequilíbrio. Esta prática fez com que as pragas secundárias passassem a causar problemas e o agente biológico deixou de ser o mais indicado, por só matar uma espécie. Houve um retrocesso no programa. Hoje, tenta-se retomar a questão do manejo integrado das pragas. É necessário rever técnicas incorretas, para poder voltar a utilizar um produto específico.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolve projetos no sentido de promover o Manejo Integrado de Pragas (MIP) em todos os estados do país. Seu objetivo é evitar o caos causado pelo excesso de agrotóxicos, que pode provocar a contaminação do solo e das águas.

Engenharia de alimentos

O engenheiro de alimentos é o profissional que promove o controle, processamento e gerenciamento dos alimentos, visando o consumidor. É um profissional que participa de todo processo produtivo dos alimentos, incluindo o controle da qualidade.

Ele atua, principalmente, na indústria de alimentos com o controle de matérias-primas, processamento e  qualidade, além do gerenciamento e desenvolvimento de novos produtos e embalagens.

Faz a análise dos alimentos, sendo fundamental no gerenciamento de unidades industriais, buscando o melhor padrão alimentar. Cuida também dos métodos de reciclagem e de reaproveitamento dos alimentos de origem animal e vegetal.

Além da indústria, ele pode trabalhar em laboratórios, fazendo análises e elaborando projetos de produtos para fábricas de alimentos.

Visa a produção de bens oriundos da floresta, através do manejo de áreas florestais. Tradicionalmente, o campo de trabalho restringia-se às grandes indústrias de carvão, celulose e madeira serrada. Hoje, com a certeza de que a humanidade depende do ambiente em que vive, esta profissão ganhou importância em outros setores. A urgência ecológica vem fazendo essa área crescer cada vez mais, especialmente desde que o grande potencial da floresta em pé como fonte de renda para as populações amazônicas foi reconhecido. Explorar os produtos da floresta pode ser mais lucrativo do que, simplesmente, derrubá-la para vender a madeira, evita o desmatamento e estimula a criatividade dos povos da região.

Nas agências governamentais, o engenheiro florestal trabalha para manter as Unidades de Conservação e fiscalizar o uso das áreas utilizadas pela iniciativa privada. Nas agências de certificação, cria meios para que os consumidores conheçam o comportamento das empresas em relação ao ambiente. Como consultor independente, alavanca a formação de florestas em pequenas e médias propriedades rurais, gerando benefícios para as pequenas comunidades. Como consultor independente, estimula a formação de florestas em pequenas e médias propriedades rurais, gerando benefícios para as pequenas comunidades.

É uma ciência aplicada que visa a exploração racional e sustentável dos animais domésticos e domesticáveis. Ao conhecimento biológico do animal, somam-se os princípios da economia e da produção de alimentos. O objetivo é produzir o máximo no menor tempo possível, sempre visando ao lucro, mas considerando o bem-estar animal.

A zootecnia também se preocupa com a conservação dos recursos naturais. Ela colabora na manutenção dos processos ecológicos e ambientais, garantindo a integridade dos ecossistemas e a conservação das espécies que compõem a nossa diversidade.

As principais especialidades dentro da área são: nutrição, alimentação, forragens, genética, melhoramento, reprodução, manejo, instalações, higiene, tecnologia de produtos e derivados de origem animal e administração rural. O zootécnico pode atuar em qualquer atividade de produção animal, como o desenvolvimento de dietas e supervisão de vacinas; fábricas ou despensa de ração; frigoríficos; centrais de inseminação; empresas privadas com foco na produção animal; representação e venda de produtos relacionados com a produção animal; laboratórios de análise de alimentos destinados a animais; laboratórios de genética zootécnica; produção, implantação e manejo de pastagens; melhoramentos genéticos dos rebanhos e pastagens.

Esse profissional ainda pode atuar no planejamento e execução de projetos de instalações para produção animal; prevenção de enfermidades; manejo e criação de animais silvestres; pesquisa nas áreas de produção animal; ensino de zootecnia e administração de propriedades rurais e indústrias do gênero.