Débora Foguel, biomédica

Nascida em 1964, no Rio de Janeiro, Débora Foguel conta que sua escolha pela Biologia foi fortemente influenciada por um professor do ensino médio, Fernando Gewandsznajder, do Colégio Eliezer Steinberg. “Com leveza e competência, ele fazia de suas aulas algo agradável, lúdico, onde aprendíamos sem perceber”.

No momento da escolha pela Biologia, não tinha clara ainda a possibilidade de ser cientista. Pensava em ser professora, de preferência com o mesmo sucesso do professor que a inspirou. Já no curso de Biologia da UFRJ, percebeu, logo no início, que o estágio de iniciação científica era fundamental para a formação de um biólogo, mesmo que seu desejo fosse o de enveredar pela carreira do magistério. “Ensinar ciência sem nunca tê-la praticado me parecia estranho e, até hoje, não compreendo como essa vivência não faz parte do currículo de qualquer licenciando”, comenta Débora.

Sua primeira incursão como cientista foi na área de Genética. Dessa tentativa guarda certa frustração, embora hoje, muitos anos já transcorridos, ela poderia dizer que talvez tenha sido sua grande sorte. Débora conta que após muito estudar para conseguir uma vaga no Laboratório de Biologia Molecular de Plantas da UFRJ, área em explosão no Brasil na década de 80, fracassou durante entrevista classificatória por não saber o número correto de cromossomos do tomate. “Essa experiência frustrante me deixou triste e pensando se seria mesmo a Biologia minha vocação… Minha mãe, preocupada com meu desânimo, sugeriu que eu conversasse com o Dr. Haity Moussatché, um grande cientista e pai de uma de suas melhores amigas.”

Lá foi ela visitá-lo em sua residência na Gávea. Ali, naquele encontro que durou uma manhã, Débora recebeu uma injeção de ânimo e amor pela ciência. “O mundo que se desfazia à minha frente, de repente, voltava a fazer sentido e tudo parecia tão óbvio! Até hoje guardo com carinho uma carta de recomendação escrita de próprio punho pelo Dr. Haity que me recomendava a qualquer laboratório de pesquisa em que eu desejasse trabalhar. Essa carta, mais do que me abrir portas, abriu de novo meu gosto pela Biologia e pelo desejo de conhecer a tal Ciência. Devo a ele ter prosseguido nesse caminho”, conta a pesquisadora.

Logo em seguida, Débora conseguiu estágio de iniciação científica no laboratório do Prof Ricardo Chaloub, no Instituto de Bioquímica da UFRJ, onde seguiu depois cursando o mestrado e o doutorado na área de fotossíntese. “Quando comecei, ele estava iniciando uma nova linha de pesquisa com cianobactérias e vivenciei ao seu lado a construção de um novo grupo, de uma nova linha de pesquisa e de certa forma de uma carreira inteira. Nessa época eu já era casada, tinha 20 anos e uma linda filha.”

Paralelamente ao curso de Licenciatura, Débora fez também o Bacharelado em Genética, que era o que mais se aproximava daquilo que realmente a tinha encantado no campo da pesquisa, a Bioquímica. “Acabei nunca lecionando em uma escola e experimentando aquilo que o Prof. Fernando fizera durante toda a sua vida. Optei pela pesquisa, embora ainda hoje me encante quando entro em sala de aula.”

Durante o doutorado, Débora passou quase dois anos na Universidade de Illinois, onde conheceu o Prof. Gregório Weber que a recebeu em seu laboratório e com quem construiu forte vínculo. “A seu lado aprendi a fazer ciência e mais importante, aprendi uma forma de se fazer ciência onde o que mais importa é a beleza do dado em si.”

Ela estudava transferência de energia entre os componentes fotossintéticos de cianobactérias. “Me deparei com algumas proteínas ‘mal comportadas’ que agregavam no tubo de ensaio. Esse fato me despertou para uma área nova que surgia e que hoje apresenta enorme relevância, uma vez que proteínas ‘mal comportadas’ estão envolvidas em patologias como Parkinson e Alzheimer, que hoje fazem parte das minhas preocupações científicas.”

Desde 1997, Débora chefia o Laboratório de Agregação de Proteínas e Amiloidoses do Instituto de Bioquímica Médica (IBqM) da UFRJ, além de ser diretora desse Instituto desde 2007. Desde 1998, é editora científica da Revista Ciência Hoje. Assumiu diversos cargos na universidade e tem participado como conferencista convidada de vários eventos nacionais e internacionais.

Débora Foguel tem prestado contribuição expressiva no campo da Biologia Estrutural e participado de diversas iniciativas na área de Educação e Difusão de Ciências, com especial destaque aos Cursos de Férias oferecidos regularmente pelo IBqM a professores e alunos das redes públicas e privadas de ensino. “Hoje, olho para trás e vejo o quão importante são para um cientista as pessoas que pela sua vida passam… Também vejo hoje o que um tomate pode fazer com a carreira de uma pessoa”, brinca a pesquisadora.

Aron Simis, matemático

Recife, Pernambuco, ano de 1942. Nasce Aron Simis, filho de pais emigrados de Iednetz, um ponto minúsculo na então Romênia, depois Rússia e hoje República da Moldávia. Sua infância e adolescência foram como as de outras crianças. Na escola, sempre foi aluno com excelentes notas e era admirado e elogiado pelos mestres e pelos mais velhos. “Isto não me enchia de vaidade, pois me parecia natural querer saber de tudo, aprender tudo e ser responsável com as obrigações escolares. Geografia e Matemática eram tão atraentes quanto musica, cinema e gibis”, conta Aron.

Seus pais, imigrantes, não passaram do primário. Na família não havia cientistas – na verdade, pouquíssimos cursaram universidade. Não sendo filho de pais intelectuais, não tinha qualquer preconceito sobre o que deveria ser classificado como relevante ou irrelevante pelos padrões usuais desta classe.

Só se aproximou da Matemática nos últimos anos do curso cientifico, que correspondia ao ensino médio de hoje. A motivação surgiu através de um colega de turma, “aluno fraco, inteligência mediana que, no entanto, portava diariamente sob a axila um livro de Matemática escrito por um engenheiro-militar, que era moda na época. O colega não sabia resolver os problemas do compêndio e me perguntava. Eu também não sabia, mas fiquei fascinado.”

Aron ainda tinha dúvidas sobre a carreira a seguir: estava entre a Arquitetura, por causa da sua habilidade para desenhar, e a Matemática. Acabou prestando vestibular para dois cursos, em faculdades diferentes – Matemática e Filosofia – pois, segundo ele, achava que poderia consertar o mundo. Seu pai aceitou com indiferença suas escolhas, pois esperava um filho engenheiro.

Graduou-se em Matemática pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), fez mestrado e doutorado na Queen’s University, no Canadá. Depois cursou um pós-doutorado na Brandeis University, nos EUA, e foi professor visitante no Max-Planck-Institut für Mathematik, na Alemanha. Para todas essas viagens Aron conseguiu apoio financeiro de instituições estrangeiras, como a Fundação Guggenheim e a Sociedade Japonesa para o Progresso da Ciência.

Sua área de interesse abrange a Geometria Algébrica, a Computação Algébrica e a Álgebra Comutativa. Colabora há muitos anos com algebristas alemães, americanos e italianos e já organizou diversas reuniões científicas internacionais. Foi Pesquisador Titular do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e eleito membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da Academia de Ciências dos Paises em Desenvolvimento (TWAS). Recebeu a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico do Presidente da República do Brasil em 2002. Atualmente é Professor Titular da Universidade Federal de Pernambuco.

O pesquisador conta que seu fascínio pela Matemática estava – e está – na simplicidade do seu conteúdo, sempre envolvendo o mínimo possível de dados, todos inerentes a sua própria estruturação interna. “Pode-se dizer que eu nunca teria sido um excelente engenheiro ou sequer um genuíno matemático aplicado preocupado com a implementação em produtos observáveis. O que realmente me encanta é saber que fiz uma escolha razoavelmente satisfatória, embora não fosse isto dedutível por teorema”, brinca Aron.

Aluízio Rosa Prata, infectologista

O mais velho de seis irmãos, Aluízio Rosa Prata nasceu em 1º de junho de 1920, em Uberaba, Minas Gerais, numa família de fazendeiros. Aos oito anos foi encaminhado para o colégio interno – o Colégio Marista -, que tinha uma disciplina muito rígida. “Eu sofri muito, tinha que acordar cedo, tomar banho frio, antes eu vivia solto lá na fazenda”, conta Aluízio.

No início ele não era bom aluno, não gostava, não estudava. Mas com o tempo foi vendo que ia ter que ter uma profissão, mudar, ia ter que dar um rumo para a vida. Quando terminou o ginásio conversou muito com um parente do Rio de Janeiro, que lhe apresentou diversas opções, e lá se foi Aluízio, com 17 anos, para o Rio de Janeiro. “Tive um choque muito grande, a vida no Rio era muito diferente, tinha saudade de casa”, confessa o pesquisador.

Ele conta que de início, via os amigos do seu tio, profissionais bem sucedidos, alguns médicos, mas não achava que tivesse muita vocação pra Medicina, que pudesse ser igual a eles. E se preocupava em apresentar algum retorno, alguma justificativa para estar no Rio de Janeiro, pois seu pai não era muito rico, mas lhe mandava religiosamente uma mesada. “Meu pai dava muito apoio para tudo que a gente queria fazer, quando eu fui embora ele disse pra eu experimentar seis meses, e que voltasse se não desse certo.”

Fazia o Colégio Universitário, para entrar na universidade, ainda sem saber o que cursar. Com o tempo, porém, foi tomando gosto pelo estudo, e quando decidiu entrar para Medicina foi logo que pôde para o pronto socorro, para a parte prática. “Já estava disposto a estudar bastante, vi que eu era capaz.”

No Rio trabalhou em vários hospitais, já tinha gosto pelo estudo e pensava em se dedicar mais às doenças do Brasil, como a esquistossomose e a doença de Chagas. “Eu já estava formado, clinicava na Marinha, já tinha feito concurso, e pesquisava ao mesmo tempo. Conversava muito com pessoas que tinham voltado de Mato Grosso e achei que seria um lugar interessante para começar a vida. Fiz o concurso e fui para Ladário, em Corumbá.”

Aluízio estudava muito, assinava 15 revistas médicas internacionais, estava sempre se atualizando e foi se dedicando cada vez mais às doenças infecciosas. “Lá tinha muita sífilis e eu me dediquei bastante a isso. Mas fiquei lá só dois anos, era ruim demais. Um calor insuportável, os outros médicos muito competitivos com quem vinha do Rio, enfim, vi que lá não ia ter muita oportunidade”, concluiu o ousado pioneiro.

Conseguiu ser transferido de volta para o Rio de Janeiro, montou um consultório e clinicava em três hospitais. Conheceu então os irmãos José e Hélio Pellegrino, médicos mineiros como ele, que gostavam de fazer pesquisa, e se interessou pela área. “Achei que eu deveria sair do Rio e achar um lugar que tivesse mais condições de estudar o que me interessava. Estava entre amebíase, onde o forte era no Pará, e esquistossomose, forte na Bahia, que foi para onde eu decidi ir”, recorda Prata. E lá ele descobriu do que realmente gostava.

“Quando cheguei na Bahia, vi que o pessoal não gostava de trabalhar com esquistossomose porque tinha muito, eles gostavam de doenças raras. Então eu me envolvi e me tornei representante da Bahia em diversas reuniões nacionais sobre esquistossomose.” Ele mesmo fazia os exames de fezes, já tinha então 150 doentes e vários resultados. Foi representar a Bahia numa reunião em São Paulo, e lá se abriu um outro mundo para ele. “Eu conheci lá os melhores profissionais do Brasi que trabalhavam com esquistossomose, o único fraco era eu. E eu decidi que ia chegar lá também. Foram dois dias com eles lá  e então eu vi que era isso que eu queria da minha vida”, contou Prata.

O médico trabalhou muitos anos na Bahia, outros tantos em Brasília, e depois voltou para Uberaba. Tornou-se professor catedrático de Doenças Tropicais e Infecciosas e fundou diversos centros de pesquisa e cursos de pós-graduação na área, em todos os estados em que trabalhou. Teve diversos cargos importantes nas universidades e em comissões e órgãos do governo, representou o Brasil na Unesco em sua área e atuou em diversos organismos internacionais, pois tornou-se um dos maiores especialistas mundiais em esquistossomose, atuando inclusive na Organização Mundial de Saúde (OMS). Foi editor de diversas revistas científicas especializadas e fundou a Sociedade Latino Americana de Medicina Tropical.

Aluízio Prata recebeu a Comenda da Ordem do Rio Branco do Ministério das Relações Exteriores (1974), o Prêmio Alfred Jurzykovski da Academia Nacional de Medicina (1980), a Medalha Capes 50 anos (2001), a Medalha da Ordem do Grande Mérito da Saúde do Governo do Estado de Minas Gerais (2002) e, no mesmo ano, a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico do Presidente da República do Brasil. E ainda orienta alunos na Faculdade de medicina do Triângulo Mineiro, em Uberaba.

Alaíde Braga, química

Minas Gerais, cidade de Morada Nova, 1941 – ano em que nasceu Alaíde Braga, a mais velha de sete irmãos. Segundo ela, esperavam que se tornasse professora primária, era o habitual para uma moça como ela. “Mas eu não queria ficar ali naquela cidade, limitada. Eu sonhava, queria conhecer o mundo, então a primeira coisa era fazer um curso superior. Meu pai de início estranhou, mas deixou.”

Foi fazer Farmácia porque sempre teve curiosidade sobre os medicamentos e quando entrou para a faculdade foi a primeira bolsista de Iniciação Científica da UFMG, orientada pelo Prof. Aloísio Pimenta, uma figura muito importante em Minas. “Foi ele quem promoveu a reforma da universidade criando os institutos, fez a mudança da universidade para a Pampulha.”

Depois de acabar o curso de graduação, Alaíde tentou fazer o doutorado com o Prof. Otto Gottlieb em Brasília, mas era o ano de 1964 e veio a revolução. “Ainda conseguimos – uma turma de professores de todas as partes do país que havia se reunido para trabalhar com o Prof. Gottlieb – instalar o primeiro laboratório de Química da Unb, íamos dar início ao curso de pós-graduação. Mas o clima era muito tenso, todo dia era notícia de que a polícia entrou na universidade, que fulano foi preso, que sicrano foi preso, então houve uma reação por parte dos professores, uma demissão coletiva e o grupo do Prof. Otto se dissolveu”, conta a professora.

Ela, como boa mineira, voltou pra casa. Já havia sido criada a pós-graduação na UFMG, onde Alaíde defendeu o doutorado com orientação do Prof. Otto, terminando em 1967, já na linha de Química de produtos naturais. “Existe uma cadeira muito antiga no curso que se chama Farmacognosia, que é o estudo de plantas como medicamentos. A parte de síntese foi para outra disciplina chamada Química Farmacêutica. E eu me fascinei por esse aspecto, de partir de uma planta qualquer, lidar com o acaso, a surpresa, identificar os extratos que se tira dela, se consegue uma quantidade maior ou menor e então se analisa sua química. O que eu queria mesmo era descobrir em cada uma sua utilidade, mas isso só foi possível muito depois.”

Em 1968 conseguiu uma bolsa para fazer o pós-doutorado na Universidade de Sheffield, na Inglaterra, trabalhando em síntese orgânica e estudos conformacionais por ressonância magnética nuclear. Voltou para a UFMG um ano depois, onde já foi professora de Química Orgânica na Escola de Engenharia e desde 1991 é Professora Titular de Fitoquímica, na Faculdade de Farmácia.

Alaíde Braga Já formou mais de 60 mestres e doutores, e foi uma das criadoras do curso de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da UFMG. Sua principal linha de pesquisa é a Química de Produtos Naturais, abordando temas de Fitoquímica, Síntese de Substâncias Naturais Biologicamente Ativas, Estudo Químico-Biológico de Plantas Medicinais, em colaboração com vários pesquisadores da área biológica. Colabora com pesquisadores estrangeiros da Alemanha, da Colômbia e dos EUA.

Hoje está aposentada, mas como foi homenageada com o título de Professora Emérita da UFMG continuou com seu laboratório, que cresceu bastante recentemente graças a parcerias com instituições estrangeiras conseguidas pela Professora Alaíde. Seu mais novo sonho agora é a criação de um Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento de Fármacos a partir da Biodiversidade Brasileira.

“Atualmente, a Ciência brasileira avançou bastante, os cursos de pós-graduação foram bem ampliados, portanto já garantimos a formação de recursos humanos. Já há alguma interdisciplinaridade, mas muito modesta para levar a um produto. Para transformarmos a biodiversidade brasileira e os resultados de pesquisa que temos em produto, precisamos de uma instituição multidisciplinar dedicada a isso, integrando a universidade e a empresa. Senão, o Brasil continuará tendo a riqueza em suas mãos e deixando-a escorrer pelos dedos”, finaliza a pesquisadora.

Bertha Becker, geógrafa

Bertha Becker nasceu em 1930, no Rio de Janeiro. Sua irmã mais velha cursava História e Geografia, o que era uma referência para a caçula. Mas escolheu estudar Geografia porque queria conhecer o mundo, viajar. E pesou muito a influência dos pais, que eram imigrantes da Europa Oriental – a mãe da Ucrânia e o pai da Romênia. “Aquilo de cruzar o Atlântico e vir para a América era lidar com a fronteira, com o desconhecido, com a possibilidade de construir coisas novas. Isso combina com a Amazônia”.

Cursou o Bacharelado e a Licenciatura em Geografia e História na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FNFi/UFRJ), no início da  década de 50. É doutora e Livre-docente pelo Instituto de Geociências da UFRJ e pós-doutora pelo Department of Urban Studies and Planning, MIT, nos EUA. Desde 2000 é Professora Titular aposentada da UFRJ e atua como consultora de diversos ministérios: da Ciência e Tecnologia (MCT), das Relações Exteriores entre eles. Também assessorou o ex-ministro Roberto Mangabeira Unger no  Plano Amazônia Sustentável.

Bertha estuda a expansão da fronteira móvel da agropecuária no Brasil desde a década de 60. Começou com o crescimento da pecuária em torno do Rio de Janeiro e São Paulo fazendo pesquisa de campo, conversando com os fazendeiros. Isso foi na década de 70 e ela acompanhou então o avanço da pecuária para Goiás e dali para a Amazônia. “As pessoas pensam que isso é novo, mas não é, a expansão das fronteiras da pecuária na direção da Amazônia tem 50 anos”.

Bertha conta que a pecuária é muito característica e antiga no Brasil. “Pecus significa dinheiro e a pecuária extensiva é um investimento que dá pouco trabalho, se desloca sozinho e é de alto rendimento no Brasil. Juscelino Kubitschek teve grande influência nesse crescimento porque até sua gestão só existiam matadouros. Com a criação de estradas e o frio industrial surgiram os frigoríficos.”

A pesquisadora conta que começou a estudar as fronteiras no regime militar, que em sua opinião teve aspectos muito positivos. “O principal foi o desenvolvimento das telecomunicações, que possibilitou inclusive o crescimento dos movimentos sociais”.

Com relação à assessoria que dá em assuntos da Amazônia, Bertha acha que hoje o mundo mudou, o Brasil mudou. “Não podemos ficar só com áreas protegidas. Primeiro porque a proteção já não protege mais e o desflorestamento continua. E só proteger não gera renda e trabalho, que é o fundamental para a região e para o país. O que precisamos é produzir para preservar.”

Bertha diz que em seus muitos anos na universidade, formando mestres e doutores, ela conclui que o que caracteriza um cientista é a paixão pelo que está estudando “porque é isso que preenche a vida.” Considera também fundamentais a perseverança e a disciplina, a capacidade de insistir quando as coisas não dão certo. Trabalhando com a Geopolítica da Amazônia, ela sabe o que é isso.

Adalberto Luis Val, biólogo

Seu pai tomava conta de uma fazenda de plantação de café, e desde menino Adalberto Luis Valtrabalhava na roça. Nascido em Campinas, no interior do estado de São Paulo, no ano de 1956, o biólogo conta que era muito apegado aos animais e que adorava pescar.

Ninguém estudava por lá porque para fazê-lo era necessário enfrentar uma longa distância, mas seu pai fez questão de colocá-lo junto com seus três irmãos na escola. “Quando eu comecei, no primário, descobri que gostava de estudar porque ali eu conseguia explicações para as coisas que eu via e vivia na fazenda”, conta Adalberto.

Quando terminou o ginásio resolveu se aprofundar nesses assuntos e foi fazer o Colégio Técnico Industrial Conselheiro Antonio Prado, em Campinas. “Escolhi o curso técnico de Bioquímica e me apaixonei por aquilo tudo, eu conseguia explicar cada vez mais e melhor tudo que envolvia meu cotidiano na fazenda.”

Teve então a oportunidade de trabalhar em São Carlos com o Prof. Arno Rudi Schwantes, estudando peixes. Adalberto gostava muito de pescar e se interessava por como os peixes viviam em seus ambientes. Decidiu ampliar seus conhecimentos cursando a graduação em Biologia em Ribeirão Preto. “Mas antes de terminar, o Prof. José Galizia Tundisi me convidou para montar um laboratório de peixes em Manaus, em 1979, e aí me apaixonei e nunca mais saí de lá. Eu acho que nunca eu teria feito a carreira que fiz – apaixonante, vibrante – se fosse em outro lugar.”

Adalberto é um entusiasta da Amazônia. “Quero realmente ver a Amazônia se desenvolvendo mesmo, de forma integral, com inclusão social. Do ponto de vista científico, trabalhar na Amazônia é especial, tudo que você toca é novo, em todas as viagens de campo descobrimos ou uma nova espécie de peixe ou uma nova maneira de os peixes se relacionarem com o ambiente, é muito impressionante”, destaca o pesquisador.

Atualmente, Adalberto Val é diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), onde estuda desde 1981 a respiração e as adaptações dos peixes da Amazônia às modificações do meio ambiente, tanto aquelas de origem natural como aquelas causadas pelo homem. Doutorou-se em 1986 e entre 1990 e 1992 cursou pós-doutorado na Universidade da Columbia Britânica, no Canadá.

Sua contribuição científica inclui mais de uma centena de publicações. É membro atuante da Sociedade Brasileira de Ictiologia (SBI) e de várias outras entidades nacionais e internacionais da área. Participa de inúmeras comissões de trabalho do governo e de organismos internacionais como consultor. É membro do corpo editorial de várias revistas nacionais e estrangeiras. Orientou quase 100 alunos, entre iniciação científica, mestrado e doutorado, além de ter recebido diversos colaboradores em nível de pós-doutorado.

Em 2000, na Inglaterra, foi incluído na Legião de Honra da American Fisheries Society, Physiology Section, por sua contribuição científica; em 2002, recebeu a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico e, em 2004, recebeu o Award of Excellence da sessão de Fisiologia da American Fisheries Society.

Falando sobre as características de um potencial cientista, Adalberto conta o que ele mais observa e admira. “Não dá para imaginar que se vai fazer um experimento e ele vai dar certo na primeira vez. Então a curiosidade associada à persistência para buscar a informação robusta de forma definitiva é o que constrói uma carreira sólida”, conclui o cientista.