Propostas

A principal dificuldade encontrada pelas mulheres quando abraçam a carreira científica é administrar seu trabalho sem abrir mão de serem mães e esposas.

Partindo da premissa de que o aprendizado de modo geral é facilitado por sua relação com atividades do cotidiano da pessoa, podem ser usados moldes de costura para ensinar Matemática, caso o grupo de alunas seja de uma comunidade envolvida com costura, assim como receitas culinárias para ensinar Química, o ciclo menstrual para ensinar Biologia. Nesse caso, não se estaria reforçando o estereótipo, mas associando a Ciência ao dia-a-dia.

Estabelecer relações entre a Ciência e as atividades cotidianas da pessoa ajuda muito na compreensão dos conteúdos e aumenta o interesse!

As recomendações da Organização Educacional, Científica e Cultural das Nações Unidas (Unesco, na sigla em inglês) para se lidar com o tema GÊNERO (que pode ser masculino ou feminino) são muitas. Veja algumas:

– a renovação da história da ciência com a inserção das mulheres;
– o apoio aos estudos de gênero relacionados ao desenvolvimento do conhecimento científico e tecnológico;
– a inserção em projetos interdisciplinares do tema igualdade de gênero como tema transversal – ou seja, trabalhado paralelamente ao tema central;
– a integração do tema gênero aos conteúdos curriculares e a didática de ciência e tecnologia;
– a criação de redes e ações coordenadas para integrar esse tema à formação básica e contínua dos professores e garantir que seja incluído nas políticas educacionais.

A ideia é fazer uma ciência mais rica, mais válida e mais sensível aos desejos, necessidades e expectativas de toda a humanidade. E as mulheres são 50% dela!

Presença na história

Numa enciclopédia com mais de mil cientistas só aparecem três mulheres. Por que não as conhecemos? Será que outras mulheres participaram do desenvolvimento de Ciência e Tecnologia (C&T)?

Sim, elas existiram e participaram. Mas na história do pensamento filosófico humano as mulheres já foram consideradas menos inteligentes, com menos coragem, com temperatura corporal mais baixa ou mais instáveis, fatores que atrapalhariam o trabalho científico.

Na Mesopotâmia, no entanto, foram astrônomas e químicas; no Egito foram médicas, antes da medicina ser reconhecida como ciência; na Grécia, eram filósofas e matemáticas; em Roma foram ginecologistas e alquimistas; na Idade Média, conhecidas botânicas e médicas; nos séculos 16 e 17 escreveram sobre temas da saúde sexual, de ginecologia e de obstetrícia. Porém, podiam até discutir nos salões sobre ciência, mas não podiam pertencer às Academias de Ciências.

Nos séculos 18 e 19, algumas mulheres se destacaram na astronomia e na matemática, como Sophie Germain Ada Lovelace. No século 20, trinta mulheres ganharam o Prêmio Nobel em física, química, medicina e fisiologia. No século 21 até o ano de 2010 foram 11 ganhadoras, totalizando 41 prêmios. São 40 mulheres vencedoras do Nobel, pois Marie Cure ganhou o prêmio duas vezes. Rosalind Franklin participou da descoberta do DNA – mas os dois homens envolvidos na descoberta foram premiados e ela não. Entre os estereótipos atuais está o de que as mulheres são muito emotivas e por isso não têm muito jeito para as ciências “duras”…

Além de incentivos para conquistarem cada vez mais espaço nas ciências e na sociedade nos dias de hoje, a Unesco recomenda uma revisão da história das ciências com a inserção das mulheres que contribuíram para o seu progresso, reconhecendo seu mérito.

Participam, mas não decidem

O acesso das mulheres à ciência e tecnologia vem crescendo significativamente com o passar dos anos. Mas será que sua capacidade de influir na tomada de decisões a respeito das aplicações e dos usos dos avanços em C&T vem crescendo na mesma proporção? Será que as opiniões, valores, necessidades e aportes das mulheres estão representados e incluídos nos debates atuais sobre o desenvolvimento científico e tecnológico? Achamos que não.

Quando as mulheres alcançam postos de liderança, geralmente recebem menos do que os homens na mesma função. Essa questão da equiparação salarial entre homens e mulheres é tema de dois projeto de lei (PL-6393/2009 e PL-7016/2010) que estão em tramitação no Congresso brasileiro, a partir de iniciativas conjugadas do Ministério da Justiça, do Ministério do Trabalho e de centrais sindicais, visando a real implementação da lei que proíbe a desigualdade no trabalho. Esse projeto de lei propõe que de fato existam mecanismos que garantam essa igualdade, incluindo o salário, como comissões nas empresas para acompanhar a promoção de medidas nesse sentido.

Mulheres cientistas: a auto-imagem

Existem barreiras culturais subjetivas com relação a mulheres cientistas. “As damas do laboratório: mulheres cientistas na história” foi uma pesquisa feita com algumas delas e mostrou que, de modo geral:

–  elas se percebem como mulheres excepcionais;
– se impõem altas expectativas e exigências quanto ao próprio desempenho;
– correspondem ao estereótipo da boa aluna que se comporta bem para ser reconhecida;
– têm medo do confronto, de manifestar desacordos e de expressar emoções;
– muitas vezes justificam condições de trabalho injustas pela sua vocação científica.

O desafio da Física

Embora hoje existam mais mulheres do que homens nas universidades brasileiras, na Física a proporção de alunas de graduação é de apenas 20%, assim como o número de docentes mulheres.

É difícil chegar no topo da carreira: os homens publicam mais artigos do que as mulheres, e esse índice é muito valorizado na avaliação do desempenho do profissional. As mulheres têm que ter o dobro da produção para se equipararem aos colegas homens.

As mulheres precisam da Física – para entender o celular, a internet, para saber se emagrecem mais andando de bicicleta ou nadando. A Física precisa das mulheres porque precisa dos mais diversos olhares.

A sociedade precisa das mulheres na Física porque são elas que ensinam as crianças em casa. E o que elas vão passar para os filhos sobre ciência e tecnologia se desconhecerem o assunto? Medo.

Além disso, o Brasil em 2009 precisava de 70 mil professores de Física para dar conta do ensino médio. Precisamos de professoras de Física, que se formam dentro dos cursos de graduação em Física, na modalidade Licenciatura, para formar e estimular novas gerações de meninas  e meninos interessados em Física!

Outro exemplo: a Matemática

A matemática é linguagem de todas as ciências, ela é o código que permite compreender a natureza. Está presente na física, na química, na computação, na biologia, na economia, entre outras. As Olimpíadas Brasileiras de Matemática existem há mais de 30 anos e têm como objetivos melhorar a qualidade do ensino de matemática, motivar, identificar e encaminhar jovens talentos para a área de Ciências, Tecnologia e Inovação e ampliar a compreensão da importância da Matemática para o desenvolvimento do país.

As Olimpíadas são divididas em quatro níveis – de acordo com o grau de escolaridade – e três fases. Todos os inscritos participam da primeira fase. Para a segunda, porém, passam apenas 5% dos inscritos, com uma proporção quase igual entre meninos e meninas.

Mas com o passar dos anos, a proporção muda entre os medalhistas: a cada nível, o número de medalhistas meninos vai ficando maior. A menina, à medida que fica mais velha, vai se desinteressando pela Matemática. No último nível, as meninas são apenas 20% dos medalhistas. O talento não vai embora, o que muda são os interesses.

Contra os preconceitos

“Meninas não se interessam por ciência” ou “tecnologia é para meninos”. Esses são alguns dos pré-conceitos apontados como extremamente prejudiciais ao desenvolvimento das mulheres nas ciências. Expectativas baixas levam a performances baixas. O preconceito pode levar os profissionais da educação a alcançarem os resultados esperados, ou seja, maus resultados.

Outro pré-conceito é a representação da imagem do cientista sempre no gênero masculino nos livros escolares e na mídia em geral. Essas imagens estereotipadas, do cientista velho e meio maluco ou da cientista feia e sem marido afastam os jovens de modo geral e especialmente as meninas, pois a ideia que passa pela cabeça é: “isso não é para mim…”

É fundamental reforçar nos jovens a idéia de que a ciência e a tecnologia são produtos de um processo social, uma produção coletiva na qual homens e mulheres colaboram trabalhando juntos, igualmente envolvidos e entusiasmados por seus trabalhos de pesquisa, imbuídos da importância destas atividades para a sociedade.

Essas mudanças culturais, no entanto, levam pelo menos duas gerações. Nossa sociedade hoje, por exemplo, é não-tabagista, ou seja, é contra o fumo em lugares fechados e até em lugares públicos abertos. Mas demorou bastante tempo para que a mudança de hábitos acontecesse. Nos filmes antigos, podemos ver todos os personagens fumando – o ato de fumar era considerado charmoso e elegante. As descobertas científicas que atribuíram alguns tipos de câncer ao cigarro e a divulgação desses novos conhecimentos através dos meios de comunicação – como jornais, revistas e a televisão – provocaram aos poucos a mudança dos valores, transformando o cigarro de “charmoso” em “vilão”, destruidor da saúde.

Currículos ocultos

Os estereótipos – que são ideias pré-concebidas tidas como verdadeiras  são reforçados no cotidiano pelo que se chama de “currículos ocultos“. Quando se diz a um menino que homens não choram, está sendo ensinado que homens não devem mostrar seus sentimentos. Quando damos ao menino o laboratório de química e para a menina uma boneca, ou quando cai água no chão e mandamos uma menina e não um menino limpar, estamos educando, passando os valores do currículo oculto.

As características a que nos referimos habitualmente em nossa cultura para valorizar meninas e meninos são diferentes, reforçam os estereótipos. Fulana é caprichosa, Fulano é curioso. Fulana é bonita, Fulano é inteligente. Na Matemática, há uma crença de que os meninos têm mais habilidade do que as meninas para o raciocínio abstrato. Quando não mostramos e não falamos sobre alguma coisa, estamos ensinando algo.

A Ciência precisa das mulheres

Motivar as crianças e jovens para que tenham interesse em ciência é um grande desafio para o Brasil. Identificar, encorajar e estimular os jovens talentosos são formas de contribuir para o crescimento de nossa sociedade, pois o desenvolvimento do país hoje e no futuro depende de termos bons cientistas e bons professores das diversas áreas das Ciências em todos os níveis, desde o ensino fundamental até o pós-doutorado.

Os países desenvolvidos estão tendo suas populações diminuídas, daí o grande investimento nas mulheres como fonte de cérebros e o estímulo por sua inclusão nas universidades e nas diversas áreas da ciência e tecnologia.

Especialistas sugerem que quando tivermos mais mulheres em posições decisórias com relação a ciência e tecnologia, teremos diferentes prioridades nas pesquisas e o desenvolvimento de diferentes tipos de tecnologia. E para implementar o empoderamento das mulheres e jovens, a ferramenta mais eficiente é o conhecimento.

Essa questão do estímulo a participação das mulheres nas Ciências Exatas é importante para a nossa construção cultural e social. A ciência poderia ser enriquecida com um maior reconhecimento da contribuição feminina, ampliando a diversidade de talentos e visões. É necessária uma mudança de valores e atitudes na nossa sociedade, que deve ser mais igualitária, possibilitando tanto a homens como às mulheres a participação no desenvolvimento dos países.

Como mudar este quadro?

É preciso encantar os meninos e meninas brasileiros com os inventos e descobertas do ser humano – que não são fruto apenas dos cérebros masculinos. Cientistas, professores e jornalistas podem contribuir para fazer com que os cidadãos e cidadãs tenham conhecimento científico suficiente para compreender e intervir na sociedade em que vivemos.

Uma recomendação é que as questões de gênero (feminino e masculino) passem a ser incorporadas no desenvolvimento de projetos e programas de educação cientifica, mostrando os desafios que existem e que devem ser enfrentados, a fim de reverter o quadro atual

O foco principal são as professoras e professores do ensino básico, que nas salas de aula podem estimular nas meninas a consciência de que elas podem ser cientistas e engenheiras, mostrando exemplos de mulheres bem sucedidas nessas áreas que não abriram mão de sua vida pessoal como esposa e mãe. As meninas devem perceber essa perspectiva como possível para suas vidas.

Os professores podem – e devem – levar os alunos em sala de aula a perceber as desigualdades entre homens e mulheres e a agir pela equiparação de oportunidades, lutar pela consolidação da educação inclusiva, não sexista, não racista e não homofóbica.

Várias Academias de Ciências do mundo – nas quais, em média, as mulheres não são somam mais que 10% – estão envolvidas num esforço de fazer com que as mulheres sejam parte integrante da força de trabalho nas áreas de Ciências e Engenharias. É preciso mudar a visão que a sociedade ainda tem de que a ciência é um espaço misógino, ou seja, que não “gosta” das mulheres…

O número vem crescendo, mas…

No início do século 20 a relação entre os papéis masculinos e os femininos era muito desigual. Os homens tinham mais anos de estudo que as mulheres. Essa relação mudou. No início do século 21 esse número já é igual, tendendo um pouquinho para um maior número de mulheres com mais anos de estudo.

A cada ano, em todo o mundo, o número de mulheres dentro das universidades aumenta. Dados da Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OECD) mostram que, na Europa, em cada 100 doutores, 43 são mulheres.

Nos EUA, o número de homens e mulheres que têm título de doutorado em ciências é estável, em ligeira queda; já o número de mulheres é menor, mas significativamente crescente. Em 40 anos, o número de graduandas dobrou, o de mestrandas aumentou três vezes e o de doutoras aumentou cinco vezes.

Elas se concentram nas Ciências Biológicas, Psicologia, Ciências Sociais e Ciências Humanas de modo geral. Nessas áreas, já chegam a ser maioria. Nas áreas de Exatas, porém – especialmente nas Engenharias – a presença feminina é bem menor, sendo elas ainda minoria.

No Brasil, seja em nível nacional, em nível da região Sudeste ou do Rio de Janeiro, o número de mulheres nas universidades vem crescendo muito, chegando a 50 % em algumas áreas das Ciências Sociais e Humanas. Hoje, a cada cem doutorandos 54 são mulheres. Entre os bolsistas de produtividade em pesquisa do CNPq, no entanto, que é a categoria que remunera os pesquisadores mais bem avaliados, apenas 25% são de mulheres.

Em 2003, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), embora a metade dos docentes fossem mulheres, apenas 23% dos cargos de chefia estavam nas mãos de mulheres. Na Comissão Executiva da 4ª Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia (4ª CNCTI), realizada em 2010, por exemplo, havia pouquíssimas mulheres, e no Conselho Consultivo desse mesmo evento não havia nenhuma.

Ou seja: o número de mulheres na Ciência vem aumentando, mas ainda são poucas em posição de destaque. A conclusão é que a ascensão da mulher dentro das carreiras científicas ainda depende de vários fatores, inclusive da quebra dos estereótipos vigentes.

Simon Schwartzman, cientista político

Filho de judeus progressistas, imigrantes da Europa Oriental e bastante pobres, Simon Schwartzman nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, no ano de 1939. Os pais tinham tido pouca ou nenhuma educação formal, falavam o íidishe e tinham ligações com uma ampla cultura de esquerda que existia nos meios judaicos de origem européia.

Simon diz que nunca pensou em ser “cientista” propriamente, mas sim em ser uma pessoa envolvida com as questões sociais e políticas, interesse despertado pelas atividades dos pais. Entrou para o curso de Sociologia e Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1958, e diz que para ele e seus colegas, embebidos na literatura marxista, não havia diferença entre ciências sociais e militância política.

Em 1962 ganhou uma bolsa para fazer um mestrado na Faculdade Latinoamericana de Ciencias Sociais (FLACSO), e foi aí que começou, segundo ele, a entender melhor o que eram a Sociologia e a Ciência Política como campos de pesquisa propriamente ditos e a importância de se separar a militância político-partidária da pesquisa. “Até hoje, contudo, acredito que os cientistas sociais não são só pesquisadores, mas também intelectuais, com a responsabilidade de pesquisar e tratar de entender, comunicar e defender suas idéias ante a sociedade.”

Simon obteve o seu Ph.D. em Ciências Políticas na Universidade da Califórnia, Berkeley, em 1973. Ele vive no Rio de Janeiro desde 1969, trabalhando e ensinando na Fundação Getúlio Vargas e até 1988 no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro. Foi professor de Ciências Políticas nas universidades de São Paulo e Minas Gerais e Pesquisador Sênior na Fundação Getúlio Vargas. Antes disso, foi diretor do Grupo de Pesquisas sobre Ensino Superior na Universidade de São Paulo.

O Prof. Schwartzman atua internacionalmente liderando grupos de pesquisa e dando aulas em diversas universidades do mundo. Foi presidente da Associação Brasileira de Sociologia e editor, por muitos anos, da Revista de Ciências Sociais. Pertence aos conselhos editoriais de várias revistas acadêmicas na América Latina e na Europa. Atualmente, dirige o Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS).

Seu trabalho inicial abordou mudanças políticas sob uma perspectiva histórica e comparativa, com ênfase especial para o Brasil. Mais recentemente, ele tem trabalhado com as dimensões sociológicas e políticas da produção do conhecimento, na ciência, tecnologia e educação. Recebeu a Medalha Comemorativa de 30 anos do CNPq em 1981 e a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico do Presidente da República do Brasil em 1996.

Maria Assunção da Silva Dias, meteorologista

Nascida em São Paulo no ano de 1952, Maria Assunção da Silva Dias pensou em ser cientista no colegial, que correspondia ao atual ensino médio, quando começaram as aulas de Física.

Através da leitura de biografias de cientistas famosos como Einstein e Marie Curie começou a se interessar por Astronomia. “Meus pais até me deram um telescópio e eu lia tudo que havia a respeito de planetas e estrelas. Na minha família tenho um tio-avô astrônomo, porém nunca o conheci. Também tinha um tio químico e foi ele quem me ensinou muito sobre os caminhos da Ciência”, conta Assunção. Seus pais sempre respeitaram e incentivaram sua escolha.

Durante o colegial também começou a ler ficção científica e criar uma idéia meio romântica do universo. Com isso, resolveu fazer o vestibular para Física na USP. Ao fim do primeiro ano, viu um cartaz oferecendo estágio na área de Meteorologia Marinha no Instituto Oceanográfico da USP. “E lá fui eu. Nem sabia direito o que era Meteorologia. Mas o estágio me revelou um novo mundo, muito mais próximo, regido pelas equações da mecânica dos fluídos que era algo que eu estava achando interessantíssimo.”

Assunção percebeu também nesse período que havia uma opção melhor para sua formação básica: o curso de Matemática Aplicada, também da USP. Pediu transferência ao fim do segundo ano de Física e se formou dois anos depois. O mestrado e o doutorado em Ciências Atmosféricas foram feitos na Colorado State University, nos EUA.” Ela já estava casada nessa época, com um futuro cientista, de uma família com tradição em Ciência, e juntos trilharam o caminho da pós-graduação e depois o caminho da docência e pesquisa na USP.

Dentro da Meteorologia, acabou se especializando na área de formação de nuvens e chuvas, especialmente a modelagem numérica desses fenômenos, com ênfase na região Amazônica. “Na Amazônia encontram-se floresta intocada e áreas desmatadas, atmosfera limpa e regiões com fumaça da queima da biomassa”, explica a professora. Isso torna a região um laboratório perfeito, a céu aberto, onde se pode analisar o efeito das atividades humanas em algo central do ambiente amazônico que é a chuva.

“O que me fascina na Amazônia é a forma com que cada parte do ecossistema e da atmosfera interage de forma muito estreita e complexa, desafiando nossa capacidade de compreensão e de modelagem. É um lugar também em que a cada novo conjunto de observações, de medidas especiais que fazemos, descobrimos novos aspectos científicos”, explica Assunção.

Atualmente, Maria Assunção é Professora Titular do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciência Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e tem bolsa de pesquisa do CNPq nível 1-A desde agosto de 1997. Desde 2003 é coordenadora geral do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC-INPE). Assumiu diversos cargos na universidade, em entidades governamentais da sua área e em comitês tanto nacionais como internacionais. É editora de algumas importantes revistas da área. Em 2006 recebeu o Prêmio Adalberto Serra pela carreira de pesquisa, conferido pela Sociedade Brasileira de Meteorologia.

José Oswaldo Siqueira, químico agrário

Nascido em Três Pontas, Minas Gerais, no ano de 1953, José Oswaldo Siqueiraera o mais velho de quatro irmãos, cujos pais não estudaram e cuidavam de uma fazenda de café e leite, no sul do Estado. “Nasci na cidade, mas fui criado na zona rural, onde aprendi a ler com todas as deficiências que a região tinha, as aulas às vezes eram num banco debaixo de uma moita de bambu”.

No 2o ano primário Oswaldo foi morar com um tio na cidade. Sua preocupação era aprender a ler escrever e contar, pra saber quantos balaios de café tinham sido colhidos no dia e coisas assim. Mas gostava de estudar, “parecia que tinha uma coisa efervescendo dentro de mim, eu não me contentava com aquela informação da escola”. Na casa do tio, ele convivia com 11 primos mais velhos. Vários já estudavam fora – Veterinária, Engenharia, Geologia. “Ali eu comecei a entender que a formação de uma pessoa ia além de saber ler e escrever.”

Quando terminou o ginásio, Oswaldo escolheu fazer um curso técnico de Química Industrial paralelamente ao curso regular – o científico, como era chamado o ensino médio na época. “Mas foi o curso técnico que aguçou em mim a curiosidade científica, mexíamos com laboratório e achei interessante.”

Aos 18 anos foi fazer o chamado “tiro de guerra”, que era o serviço militar. Fez o curso de cabo e cismou que queria fazer Química Bélica, adorava a idéia de saber como fazer as substâncias explodirem. “Cheguei a ir conhecer a Aman, em Resende, pensando em seguir a carreira militar. Mas lá eu vi que não conseguiria estudar tanta Química quanto eu queria.” Foi então para a casa de um tio que era engenheiro agrônomo em Juiz de Fora e se preparar para fazer o vestibular para Química na UFJF.

Um dia foram visitar a escola em que seu tio tinha estudado, a Escola Técnica Superior de Lavras. Oswaldo já tinha estudado um pouco de Química Agrícola na escola técnica e tinha se entusiasmado na época. “Quando chegamos lá, vi um anúncio de inscrições abertas para o vestibular. Falei com o meu tio que talvez fosse bom tentar, ele pagou a inscrição e eu passei.”

Na primeira semana de aula Oswaldo percebeu que sabia mais Química que alguns professores, por causa da escola técnica. Começou a trabalhar no laboratório de Química Inorgânica e passou a ajudar o professor a preparar as aulas e coordenar as atividades de laboratório. “Resolvi que queria naquele momento começar alguma pesquisa minha. Estruturei lá então um experimento que era estudar a dureza da água de uma região que tinha muito calcário”, relembra o pesquisador.

José Oswaldo conta que o Brasil gastava muito naquela época com importação de fertilizantes e em função disso o governo lançou uma campanha visando o desenvolvimento de alternativas para os fertilizantes. “O potássio é elemento fundamental para a agricultura e o Brasil não tem reservas. Mas temos maciços imensos com silicato de potássio, são minerais que têm potássio, só que em concentração baixa”.

Já tendo estudado o assunto anteriormente, Oswaldo começou a fazer muitas perguntas ao professor, Fernando Bahia, sobre os possíveis aproveitamentos do silicato. E tanto perguntou que o professor convidou-o para ajudá-lo num projeto de pesquisa para estudar um silicato de potássio com grande ocorrência numa certa região de Minas, visando a sua utilização como fonte de fertilizantes.

Eles precisavam avaliar se as plantas eram capazes de aproveitar o potássio desse mineral. Foram então a Poços de Caldas coletar um pouco do solo, para misturar a ele um tanto de rocha com silicato moída, para ver como as plantas ali inseridas reagiriam. Mas o que viram é que as plantas não conseguiam usar aquele potássio.

“Aí fui atrás de professores de mineralogia de geologia e pedi que me mostrassem a estrutura do silicato. Aí vi que ele estava preso no meio de silício, ferro e cálcio e era necessário quebrar aquela molécula”. Oswaldo explicou que esta quebra pode ser realizada de diversas formas: quimicamente, usando um produto químico para dissolver a rocha; termicamente, usando uma energia física para romper a estrutura cristalina e mudar a forma; ou biologicamente, usando fungos que produzissem substâncias que atacassem aquele mineral e soltassem o potássio. “Escolhi esse caminho e foi assim que passei a estudar Microbiologia e Bioquímica dos solos.”

Nesta fase, Oswaldo passou a dar aulas de Química Orgânica, Inorgânica e Físico-química em sua cidade de origem, às sextas e sábados. Depois, sem ter sequer um mestrado, foi contratado para professor da Universidade.  Foi quando surgiu a oportunidade de fazer a pós-graduação fora. “Lá foi muito difícil, tinha a barreira da língua e eu tinha medo de não corresponder às expectativas”. Mas a curiosidade e a vontade de trabalhar com o desconhecido é que movem um cientista: em quatro anos e meio Oswaldo completou mestrado e doutorado pela Universidade da Florida.

A pesquisa desenvolvida na pós-graduação foi sobre sinais moleculares que as plantas produzem quando estão estressadas e desejam atrair para si um organismo mutualista, que estabelece uma relação simbiótica com ela, grudando nas raízes e ajudando-a a absorver água, nutrientes e tudo mais. Lá ele se juntou a um fisiologista de plantas e a um químico de produto naturais para desenvolver a pesquisa. “O segredo era captar essa substância sinalizadora, identificá-la e sintetizá-la. Foi o que fizemos”. O grupo conseguiu sintetizar essa sustância e patenteou um produto chamado mycronite.

Alguns anos depois, José Oswaldo voltou aos EUA, agora na Michigan State University, para fazer um curso de pós-doutorado. Seu objetivo era cultivar um organismo que na natureza só se multiplica na presença do hospedeiro vivo. “É um fungo que só fecha seu ciclo de vida numa raiz viva. O desafio era cultivar esse fungo longe da raiz.”

Em vez de trabalhar com a planta, Oswaldo trabalhava com células vegetais. “Quando punha uma célula vegetal com algum tipo de estresse junto com o fungo, ele crescia muito mais. Postulamos então que quando a planta estava estressada ela mandava um sinal para estimular o fungo a crescer na rizosfera, penetrar na terra e estabelecer a relação simbiótica.”

Quando estava nos Estados Unidos, Oswaldo confessa que se sentiu em alguns momentos incapaz. “Minha formação na graduação foi muito eclética e nos EUA o ensino é verticalizado, mais aprofundado. Quando a disciplina era de aprofundamento eu sofria e quando era de visão geral – de agricultura, meio ambiente – eu ia bem.” Mas ao final do curso recebeu o Award for Excellence in Graduate Studies en Soil Science for the Year of 1983, concedido anualmente aos doutorandos de maior destaque naquele programa da Universidade da Flórida.

Para ele, inteligência é a capacidade de lidar com o desconhecido e em alguns momentos ele achou que sua capacidade era limitada. “Mas aos poucos eu fui pegando, fui observando e hoje tenho plena certeza de que não é preciso ser um gênio para ser um cientista. O que é preciso é ter um sonho, acreditar nele, ter alguns fundamentos, entender que a ciência é constituída de filosofia e de métodos”. Oswaldo diz que se o estudante for capaz de entender e exercitar isso, sendo persistente e tendo capacidade de formulação, pode ir longe. “Hoje em dia ninguém descobre nada sozinho.”

Recebeu o Prêmio Santista 2000, por sua contribuição à Biotecnologia Agropecuária. No mesmo ano de 2000 tornou-se membro da American Association for the Advancement of Science (AAAS). Em 2001 foi eleito membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e recebeu o título de Comendador Antônio Secundino de São José, outorgado pelo Governo do Estado de Minas Gerais.

Em 2003 foi eleito membro da Academia de Ciências do Mundo em Desenvolvimento (TWAS) e em 2007 recebeu o Prêmio Mérito Universitário, outorgado pelo Conselho Universitário da Universidade Federal de Lavras. O cientista acha que chegou muito além do que esperava e até do que merecia, em suas palavras. E José Oswaldo Siqueira considera que seu trabalho hoje como dïretor de projetos especiais no CNPq “é uma grande oportunidade de servir ao país.”

Francisco César de Sá Barreto, físico

1940, Fortaleza, Ceará. De famílias simples, os pais de Francisco César de Sá Barreto não tiveram instrução universitária. Em meados dos anos 40, a família mudou-se para o sul do país e após alguns anos fixou-se em Belo Horizonte, Minas Gerais. Estudou no Colégio Estadual de Minas Gerais, de muito prestígio naquela época.

Segundo César, naquela época só se fazia Medicina, Engenharia ou Direito. Ele começou a trabalhar muito cedo, aos 15 anos, numa seção de Engenharia Sanitária do antigo Serviço Nacional de Malária. “No começo eu copiava mapas, fazia desenho cartográfico. Depois comecei a fazer desenhos topográficos. Mas meus colegas mais velhos já eram alunos da faculdade de Engenharia.”

Ele conta que gostava muito de Matemática, mas de Física não gostava porque o professor era muito ruim no colégio. Em Química não tinha muito interesse. Só sabia que não queria trabalhar com Engenharia. No último ano do curso científico, correspondente ao ensino médio de hoje, César buscou orientação vocacional para fazer sua escolha de carreira. “Existia em Belo Horizonte um Serviço de Orientação e Seleção Profissional com o Prof. Pedro Parafita de Bessa, psicólogo da UFMG. Era difícil conseguir vaga, era um processo longo. Escrevi minha biografia e fiz diversos outros testes e atividades.”

“Numa entrevista final com o orientador ele me disse que arquitetura não seria uma boa opção, embora eu desenhasse bem. Ele falou sobre os tipos de inteligência e não fechou em nenhuma carreira específica, o que fortaleceu minha confiança nele, mas sugeriu Ciência – ‘a Física, por exemplo, porque não?’. Eu pensei que a Física usa a linguagem da Matemática, de que gostava, então fui ver onde é que se fazia Física e fiz o vestibular”, conta César.

Entrou na graduação na UFMG em 1962, foi aprendendo e gostando. Teve a opção de ir pra Brasília, após graduar-se em 1965, fazer a pós-graduação com o Prof. Jayme Tiomno, mas veio a crise de Brasília e o seu potencial orientador voltou para o Rio de Jaeniro. “Fui me encontrar com ele, que deixou claro que não tinha nada para me oferecer naquele momento, que não sabia o que ia acontecer com ele e que eu deveria procurar outro caminho”, narra Sá Barreto.

Começou então a cursar o primeiro mestrado da UFMG, em 1966, criado pelo Prof. Ramayana Gazzinelli. Através de um apoio da Fundação Rockefeller, César conseguiu uma bolsa para fazer doutorado nos EUA, em 1967. “Fui para Pittsburgh, onde na época havia uma boa comunidade científica brasileira, era um ambiente bom. Era difícil a comunicação na época, os contatos com o Brasil eram poucos”, lembra Sá Barreto. Ele queria trabalhar com ressonância magnética, uma área de pesquisa que o Prof. Ramayana queria implementar na UFMG, para que quando voltasse pudesse dar continuidade ao seu trabalho teórico dentro de um grupo experimental.

Nesta fase, porém, César teve a oportunidade de ir para a Universidade da Califórnia estudar aquilo que ele realmente queria – Dinâmica de Sistemas Magnéticos na área de Física de Matéria Condensada. Ele passou sete meses lá, defendeu a tese em Pittsburgh e voltou pra Minas. “Quando cheguei aqui, em 1971, a Física Teórica no Brasil ainda era muito pequena, não tinha quase nada. Acabei mudando de área porque, para criar massa crítica, resolvemos fazer na UFMG um grupo voltado para o estudo de Sistemas Ferroelétricos, que tinha físicos teóricos e experimentais. Cada um abriu mão de suas pesquisas próprias para fortalecer essa área e o departamento ficou conhecido na época principalmente por causa desse grupo, que durou dez anos”, rememora o pesquisador. Sua principal linha de pesquisa, desde então, é a Mecânica Estatística de Transições de Fase.

César Sá Barreto sempre deu aulas, tanto na graduação quanto na pós-graduação. Orientou dezenas de mestres e doutores, tendo exercido diversos cargos na universidade, inclusive o de reitor. Atuou também na Sociedade Brasileira de Física e em órgãos do governo ligados à sua área, prestando consultoria. Já publicou dezenas de artigos, proferiu dezenas de seminários no país e no exterior e participou de inúmeras conferências nacionais e internacionais.

Atualmente é Professor Emérito da UFMG, onde já foi pró-reitor de pesquisa e reitor. Foi também secretário de Educação Superior do Ministério da Educação e presidente da Sociedade Brasileira de Física, além de ter sido membro de diversos Conselhos e Comitês ligados ao governo.

Recebeu a Medalha Jubileu do CNPq em 1981, a Medalha da Universidade Federal de Santa Maria em 1994, o Prêmio Fundepda UFMG em 1996, quatro Medalhas do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração, a Medalha Santos Dumont Categoria Ouro e a Grande Medalha da Inconfidência, ambas em 1998; a Grande Medalha do Mérito Educacional de Minas Gerais no ano seguinte; a Medalha Gustavo Capanema do Governo de Minas Gerais em 2000, assim como a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico do Presidente da República do Brasil, no mesmo ano; e o título de Grande Oficial da Ordem Nacional do Mérito Educativo em 2002, ano em que também tornou-se Cidadão Honorário de Belo Horizonte.