Propostas

A principal dificuldade encontrada pelas mulheres quando abraçam a carreira científica é administrar seu trabalho sem abrir mão de serem mães e esposas.

Partindo da premissa de que o aprendizado de modo geral é facilitado por sua relação com atividades do cotidiano da pessoa, podem ser usados moldes de costura para ensinar Matemática, caso o grupo de alunas seja de uma comunidade envolvida com costura, assim como receitas culinárias para ensinar Química, o ciclo menstrual para ensinar Biologia. Nesse caso, não se estaria reforçando o estereótipo, mas associando a Ciência ao dia-a-dia.

Estabelecer relações entre a Ciência e as atividades cotidianas da pessoa ajuda muito na compreensão dos conteúdos e aumenta o interesse!

As recomendações da Organização Educacional, Científica e Cultural das Nações Unidas (Unesco, na sigla em inglês) para se lidar com o tema GÊNERO (que pode ser masculino ou feminino) são muitas. Veja algumas:

– a renovação da história da ciência com a inserção das mulheres;
– o apoio aos estudos de gênero relacionados ao desenvolvimento do conhecimento científico e tecnológico;
– a inserção em projetos interdisciplinares do tema igualdade de gênero como tema transversal – ou seja, trabalhado paralelamente ao tema central;
– a integração do tema gênero aos conteúdos curriculares e a didática de ciência e tecnologia;
– a criação de redes e ações coordenadas para integrar esse tema à formação básica e contínua dos professores e garantir que seja incluído nas políticas educacionais.

A ideia é fazer uma ciência mais rica, mais válida e mais sensível aos desejos, necessidades e expectativas de toda a humanidade. E as mulheres são 50% dela!

Presença na história

Numa enciclopédia com mais de mil cientistas só aparecem três mulheres. Por que não as conhecemos? Será que outras mulheres participaram do desenvolvimento de Ciência e Tecnologia (C&T)?

Sim, elas existiram e participaram. Mas na história do pensamento filosófico humano as mulheres já foram consideradas menos inteligentes, com menos coragem, com temperatura corporal mais baixa ou mais instáveis, fatores que atrapalhariam o trabalho científico.

Na Mesopotâmia, no entanto, foram astrônomas e químicas; no Egito foram médicas, antes da medicina ser reconhecida como ciência; na Grécia, eram filósofas e matemáticas; em Roma foram ginecologistas e alquimistas; na Idade Média, conhecidas botânicas e médicas; nos séculos 16 e 17 escreveram sobre temas da saúde sexual, de ginecologia e de obstetrícia. Porém, podiam até discutir nos salões sobre ciência, mas não podiam pertencer às Academias de Ciências.

Nos séculos 18 e 19, algumas mulheres se destacaram na astronomia e na matemática, como Sophie Germain Ada Lovelace. No século 20, trinta mulheres ganharam o Prêmio Nobel em física, química, medicina e fisiologia. No século 21 até o ano de 2010 foram 11 ganhadoras, totalizando 41 prêmios. São 40 mulheres vencedoras do Nobel, pois Marie Cure ganhou o prêmio duas vezes. Rosalind Franklin participou da descoberta do DNA – mas os dois homens envolvidos na descoberta foram premiados e ela não. Entre os estereótipos atuais está o de que as mulheres são muito emotivas e por isso não têm muito jeito para as ciências “duras”…

Além de incentivos para conquistarem cada vez mais espaço nas ciências e na sociedade nos dias de hoje, a Unesco recomenda uma revisão da história das ciências com a inserção das mulheres que contribuíram para o seu progresso, reconhecendo seu mérito.

Participam, mas não decidem

O acesso das mulheres à ciência e tecnologia vem crescendo significativamente com o passar dos anos. Mas será que sua capacidade de influir na tomada de decisões a respeito das aplicações e dos usos dos avanços em C&T vem crescendo na mesma proporção? Será que as opiniões, valores, necessidades e aportes das mulheres estão representados e incluídos nos debates atuais sobre o desenvolvimento científico e tecnológico? Achamos que não.

Quando as mulheres alcançam postos de liderança, geralmente recebem menos do que os homens na mesma função. Essa questão da equiparação salarial entre homens e mulheres é tema de dois projeto de lei (PL-6393/2009 e PL-7016/2010) que estão em tramitação no Congresso brasileiro, a partir de iniciativas conjugadas do Ministério da Justiça, do Ministério do Trabalho e de centrais sindicais, visando a real implementação da lei que proíbe a desigualdade no trabalho. Esse projeto de lei propõe que de fato existam mecanismos que garantam essa igualdade, incluindo o salário, como comissões nas empresas para acompanhar a promoção de medidas nesse sentido.

Mulheres cientistas: a auto-imagem

Existem barreiras culturais subjetivas com relação a mulheres cientistas. “As damas do laboratório: mulheres cientistas na história” foi uma pesquisa feita com algumas delas e mostrou que, de modo geral:

–  elas se percebem como mulheres excepcionais;
– se impõem altas expectativas e exigências quanto ao próprio desempenho;
– correspondem ao estereótipo da boa aluna que se comporta bem para ser reconhecida;
– têm medo do confronto, de manifestar desacordos e de expressar emoções;
– muitas vezes justificam condições de trabalho injustas pela sua vocação científica.

O desafio da Física

Embora hoje existam mais mulheres do que homens nas universidades brasileiras, na Física a proporção de alunas de graduação é de apenas 20%, assim como o número de docentes mulheres.

É difícil chegar no topo da carreira: os homens publicam mais artigos do que as mulheres, e esse índice é muito valorizado na avaliação do desempenho do profissional. As mulheres têm que ter o dobro da produção para se equipararem aos colegas homens.

As mulheres precisam da Física – para entender o celular, a internet, para saber se emagrecem mais andando de bicicleta ou nadando. A Física precisa das mulheres porque precisa dos mais diversos olhares.

A sociedade precisa das mulheres na Física porque são elas que ensinam as crianças em casa. E o que elas vão passar para os filhos sobre ciência e tecnologia se desconhecerem o assunto? Medo.

Além disso, o Brasil em 2009 precisava de 70 mil professores de Física para dar conta do ensino médio. Precisamos de professoras de Física, que se formam dentro dos cursos de graduação em Física, na modalidade Licenciatura, para formar e estimular novas gerações de meninas  e meninos interessados em Física!

Outro exemplo: a Matemática

A matemática é linguagem de todas as ciências, ela é o código que permite compreender a natureza. Está presente na física, na química, na computação, na biologia, na economia, entre outras. As Olimpíadas Brasileiras de Matemática existem há mais de 30 anos e têm como objetivos melhorar a qualidade do ensino de matemática, motivar, identificar e encaminhar jovens talentos para a área de Ciências, Tecnologia e Inovação e ampliar a compreensão da importância da Matemática para o desenvolvimento do país.

As Olimpíadas são divididas em quatro níveis – de acordo com o grau de escolaridade – e três fases. Todos os inscritos participam da primeira fase. Para a segunda, porém, passam apenas 5% dos inscritos, com uma proporção quase igual entre meninos e meninas.

Mas com o passar dos anos, a proporção muda entre os medalhistas: a cada nível, o número de medalhistas meninos vai ficando maior. A menina, à medida que fica mais velha, vai se desinteressando pela Matemática. No último nível, as meninas são apenas 20% dos medalhistas. O talento não vai embora, o que muda são os interesses.

Contra os preconceitos

“Meninas não se interessam por ciência” ou “tecnologia é para meninos”. Esses são alguns dos pré-conceitos apontados como extremamente prejudiciais ao desenvolvimento das mulheres nas ciências. Expectativas baixas levam a performances baixas. O preconceito pode levar os profissionais da educação a alcançarem os resultados esperados, ou seja, maus resultados.

Outro pré-conceito é a representação da imagem do cientista sempre no gênero masculino nos livros escolares e na mídia em geral. Essas imagens estereotipadas, do cientista velho e meio maluco ou da cientista feia e sem marido afastam os jovens de modo geral e especialmente as meninas, pois a ideia que passa pela cabeça é: “isso não é para mim…”

É fundamental reforçar nos jovens a idéia de que a ciência e a tecnologia são produtos de um processo social, uma produção coletiva na qual homens e mulheres colaboram trabalhando juntos, igualmente envolvidos e entusiasmados por seus trabalhos de pesquisa, imbuídos da importância destas atividades para a sociedade.

Essas mudanças culturais, no entanto, levam pelo menos duas gerações. Nossa sociedade hoje, por exemplo, é não-tabagista, ou seja, é contra o fumo em lugares fechados e até em lugares públicos abertos. Mas demorou bastante tempo para que a mudança de hábitos acontecesse. Nos filmes antigos, podemos ver todos os personagens fumando – o ato de fumar era considerado charmoso e elegante. As descobertas científicas que atribuíram alguns tipos de câncer ao cigarro e a divulgação desses novos conhecimentos através dos meios de comunicação – como jornais, revistas e a televisão – provocaram aos poucos a mudança dos valores, transformando o cigarro de “charmoso” em “vilão”, destruidor da saúde.

Currículos ocultos

Os estereótipos – que são ideias pré-concebidas tidas como verdadeiras  são reforçados no cotidiano pelo que se chama de “currículos ocultos“. Quando se diz a um menino que homens não choram, está sendo ensinado que homens não devem mostrar seus sentimentos. Quando damos ao menino o laboratório de química e para a menina uma boneca, ou quando cai água no chão e mandamos uma menina e não um menino limpar, estamos educando, passando os valores do currículo oculto.

As características a que nos referimos habitualmente em nossa cultura para valorizar meninas e meninos são diferentes, reforçam os estereótipos. Fulana é caprichosa, Fulano é curioso. Fulana é bonita, Fulano é inteligente. Na Matemática, há uma crença de que os meninos têm mais habilidade do que as meninas para o raciocínio abstrato. Quando não mostramos e não falamos sobre alguma coisa, estamos ensinando algo.

A Ciência precisa das mulheres

Motivar as crianças e jovens para que tenham interesse em ciência é um grande desafio para o Brasil. Identificar, encorajar e estimular os jovens talentosos são formas de contribuir para o crescimento de nossa sociedade, pois o desenvolvimento do país hoje e no futuro depende de termos bons cientistas e bons professores das diversas áreas das Ciências em todos os níveis, desde o ensino fundamental até o pós-doutorado.

Os países desenvolvidos estão tendo suas populações diminuídas, daí o grande investimento nas mulheres como fonte de cérebros e o estímulo por sua inclusão nas universidades e nas diversas áreas da ciência e tecnologia.

Especialistas sugerem que quando tivermos mais mulheres em posições decisórias com relação a ciência e tecnologia, teremos diferentes prioridades nas pesquisas e o desenvolvimento de diferentes tipos de tecnologia. E para implementar o empoderamento das mulheres e jovens, a ferramenta mais eficiente é o conhecimento.

Essa questão do estímulo a participação das mulheres nas Ciências Exatas é importante para a nossa construção cultural e social. A ciência poderia ser enriquecida com um maior reconhecimento da contribuição feminina, ampliando a diversidade de talentos e visões. É necessária uma mudança de valores e atitudes na nossa sociedade, que deve ser mais igualitária, possibilitando tanto a homens como às mulheres a participação no desenvolvimento dos países.

Como mudar este quadro?

É preciso encantar os meninos e meninas brasileiros com os inventos e descobertas do ser humano – que não são fruto apenas dos cérebros masculinos. Cientistas, professores e jornalistas podem contribuir para fazer com que os cidadãos e cidadãs tenham conhecimento científico suficiente para compreender e intervir na sociedade em que vivemos.

Uma recomendação é que as questões de gênero (feminino e masculino) passem a ser incorporadas no desenvolvimento de projetos e programas de educação cientifica, mostrando os desafios que existem e que devem ser enfrentados, a fim de reverter o quadro atual

O foco principal são as professoras e professores do ensino básico, que nas salas de aula podem estimular nas meninas a consciência de que elas podem ser cientistas e engenheiras, mostrando exemplos de mulheres bem sucedidas nessas áreas que não abriram mão de sua vida pessoal como esposa e mãe. As meninas devem perceber essa perspectiva como possível para suas vidas.

Os professores podem – e devem – levar os alunos em sala de aula a perceber as desigualdades entre homens e mulheres e a agir pela equiparação de oportunidades, lutar pela consolidação da educação inclusiva, não sexista, não racista e não homofóbica.

Várias Academias de Ciências do mundo – nas quais, em média, as mulheres não são somam mais que 10% – estão envolvidas num esforço de fazer com que as mulheres sejam parte integrante da força de trabalho nas áreas de Ciências e Engenharias. É preciso mudar a visão que a sociedade ainda tem de que a ciência é um espaço misógino, ou seja, que não “gosta” das mulheres…

O número vem crescendo, mas…

No início do século 20 a relação entre os papéis masculinos e os femininos era muito desigual. Os homens tinham mais anos de estudo que as mulheres. Essa relação mudou. No início do século 21 esse número já é igual, tendendo um pouquinho para um maior número de mulheres com mais anos de estudo.

A cada ano, em todo o mundo, o número de mulheres dentro das universidades aumenta. Dados da Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OECD) mostram que, na Europa, em cada 100 doutores, 43 são mulheres.

Nos EUA, o número de homens e mulheres que têm título de doutorado em ciências é estável, em ligeira queda; já o número de mulheres é menor, mas significativamente crescente. Em 40 anos, o número de graduandas dobrou, o de mestrandas aumentou três vezes e o de doutoras aumentou cinco vezes.

Elas se concentram nas Ciências Biológicas, Psicologia, Ciências Sociais e Ciências Humanas de modo geral. Nessas áreas, já chegam a ser maioria. Nas áreas de Exatas, porém – especialmente nas Engenharias – a presença feminina é bem menor, sendo elas ainda minoria.

No Brasil, seja em nível nacional, em nível da região Sudeste ou do Rio de Janeiro, o número de mulheres nas universidades vem crescendo muito, chegando a 50 % em algumas áreas das Ciências Sociais e Humanas. Hoje, a cada cem doutorandos 54 são mulheres. Entre os bolsistas de produtividade em pesquisa do CNPq, no entanto, que é a categoria que remunera os pesquisadores mais bem avaliados, apenas 25% são de mulheres.

Em 2003, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), embora a metade dos docentes fossem mulheres, apenas 23% dos cargos de chefia estavam nas mãos de mulheres. Na Comissão Executiva da 4ª Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia (4ª CNCTI), realizada em 2010, por exemplo, havia pouquíssimas mulheres, e no Conselho Consultivo desse mesmo evento não havia nenhuma.

Ou seja: o número de mulheres na Ciência vem aumentando, mas ainda são poucas em posição de destaque. A conclusão é que a ascensão da mulher dentro das carreiras científicas ainda depende de vários fatores, inclusive da quebra dos estereótipos vigentes.