Simon Schwartzman, cientista político

Filho de judeus progressistas, imigrantes da Europa Oriental e bastante pobres, Simon Schwartzman nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, no ano de 1939. Os pais tinham tido pouca ou nenhuma educação formal, falavam o íidishe e tinham ligações com uma ampla cultura de esquerda que existia nos meios judaicos de origem européia.

Simon diz que nunca pensou em ser “cientista” propriamente, mas sim em ser uma pessoa envolvida com as questões sociais e políticas, interesse despertado pelas atividades dos pais. Entrou para o curso de Sociologia e Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1958, e diz que para ele e seus colegas, embebidos na literatura marxista, não havia diferença entre ciências sociais e militância política.

Em 1962 ganhou uma bolsa para fazer um mestrado na Faculdade Latinoamericana de Ciencias Sociais (FLACSO), e foi aí que começou, segundo ele, a entender melhor o que eram a Sociologia e a Ciência Política como campos de pesquisa propriamente ditos e a importância de se separar a militância político-partidária da pesquisa. “Até hoje, contudo, acredito que os cientistas sociais não são só pesquisadores, mas também intelectuais, com a responsabilidade de pesquisar e tratar de entender, comunicar e defender suas idéias ante a sociedade.”

Simon obteve o seu Ph.D. em Ciências Políticas na Universidade da Califórnia, Berkeley, em 1973. Ele vive no Rio de Janeiro desde 1969, trabalhando e ensinando na Fundação Getúlio Vargas e até 1988 no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro. Foi professor de Ciências Políticas nas universidades de São Paulo e Minas Gerais e Pesquisador Sênior na Fundação Getúlio Vargas. Antes disso, foi diretor do Grupo de Pesquisas sobre Ensino Superior na Universidade de São Paulo.

O Prof. Schwartzman atua internacionalmente liderando grupos de pesquisa e dando aulas em diversas universidades do mundo. Foi presidente da Associação Brasileira de Sociologia e editor, por muitos anos, da Revista de Ciências Sociais. Pertence aos conselhos editoriais de várias revistas acadêmicas na América Latina e na Europa. Atualmente, dirige o Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS).

Seu trabalho inicial abordou mudanças políticas sob uma perspectiva histórica e comparativa, com ênfase especial para o Brasil. Mais recentemente, ele tem trabalhado com as dimensões sociológicas e políticas da produção do conhecimento, na ciência, tecnologia e educação. Recebeu a Medalha Comemorativa de 30 anos do CNPq em 1981 e a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico do Presidente da República do Brasil em 1996.

Maria Assunção da Silva Dias, meteorologista

Nascida em São Paulo no ano de 1952, Maria Assunção da Silva Dias pensou em ser cientista no colegial, que correspondia ao atual ensino médio, quando começaram as aulas de Física.

Através da leitura de biografias de cientistas famosos como Einstein e Marie Curie começou a se interessar por Astronomia. “Meus pais até me deram um telescópio e eu lia tudo que havia a respeito de planetas e estrelas. Na minha família tenho um tio-avô astrônomo, porém nunca o conheci. Também tinha um tio químico e foi ele quem me ensinou muito sobre os caminhos da Ciência”, conta Assunção. Seus pais sempre respeitaram e incentivaram sua escolha.

Durante o colegial também começou a ler ficção científica e criar uma idéia meio romântica do universo. Com isso, resolveu fazer o vestibular para Física na USP. Ao fim do primeiro ano, viu um cartaz oferecendo estágio na área de Meteorologia Marinha no Instituto Oceanográfico da USP. “E lá fui eu. Nem sabia direito o que era Meteorologia. Mas o estágio me revelou um novo mundo, muito mais próximo, regido pelas equações da mecânica dos fluídos que era algo que eu estava achando interessantíssimo.”

Assunção percebeu também nesse período que havia uma opção melhor para sua formação básica: o curso de Matemática Aplicada, também da USP. Pediu transferência ao fim do segundo ano de Física e se formou dois anos depois. O mestrado e o doutorado em Ciências Atmosféricas foram feitos na Colorado State University, nos EUA.” Ela já estava casada nessa época, com um futuro cientista, de uma família com tradição em Ciência, e juntos trilharam o caminho da pós-graduação e depois o caminho da docência e pesquisa na USP.

Dentro da Meteorologia, acabou se especializando na área de formação de nuvens e chuvas, especialmente a modelagem numérica desses fenômenos, com ênfase na região Amazônica. “Na Amazônia encontram-se floresta intocada e áreas desmatadas, atmosfera limpa e regiões com fumaça da queima da biomassa”, explica a professora. Isso torna a região um laboratório perfeito, a céu aberto, onde se pode analisar o efeito das atividades humanas em algo central do ambiente amazônico que é a chuva.

“O que me fascina na Amazônia é a forma com que cada parte do ecossistema e da atmosfera interage de forma muito estreita e complexa, desafiando nossa capacidade de compreensão e de modelagem. É um lugar também em que a cada novo conjunto de observações, de medidas especiais que fazemos, descobrimos novos aspectos científicos”, explica Assunção.

Atualmente, Maria Assunção é Professora Titular do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciência Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e tem bolsa de pesquisa do CNPq nível 1-A desde agosto de 1997. Desde 2003 é coordenadora geral do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC-INPE). Assumiu diversos cargos na universidade, em entidades governamentais da sua área e em comitês tanto nacionais como internacionais. É editora de algumas importantes revistas da área. Em 2006 recebeu o Prêmio Adalberto Serra pela carreira de pesquisa, conferido pela Sociedade Brasileira de Meteorologia.

José Oswaldo Siqueira, químico agrário

Nascido em Três Pontas, Minas Gerais, no ano de 1953, José Oswaldo Siqueiraera o mais velho de quatro irmãos, cujos pais não estudaram e cuidavam de uma fazenda de café e leite, no sul do Estado. “Nasci na cidade, mas fui criado na zona rural, onde aprendi a ler com todas as deficiências que a região tinha, as aulas às vezes eram num banco debaixo de uma moita de bambu”.

No 2o ano primário Oswaldo foi morar com um tio na cidade. Sua preocupação era aprender a ler escrever e contar, pra saber quantos balaios de café tinham sido colhidos no dia e coisas assim. Mas gostava de estudar, “parecia que tinha uma coisa efervescendo dentro de mim, eu não me contentava com aquela informação da escola”. Na casa do tio, ele convivia com 11 primos mais velhos. Vários já estudavam fora – Veterinária, Engenharia, Geologia. “Ali eu comecei a entender que a formação de uma pessoa ia além de saber ler e escrever.”

Quando terminou o ginásio, Oswaldo escolheu fazer um curso técnico de Química Industrial paralelamente ao curso regular – o científico, como era chamado o ensino médio na época. “Mas foi o curso técnico que aguçou em mim a curiosidade científica, mexíamos com laboratório e achei interessante.”

Aos 18 anos foi fazer o chamado “tiro de guerra”, que era o serviço militar. Fez o curso de cabo e cismou que queria fazer Química Bélica, adorava a idéia de saber como fazer as substâncias explodirem. “Cheguei a ir conhecer a Aman, em Resende, pensando em seguir a carreira militar. Mas lá eu vi que não conseguiria estudar tanta Química quanto eu queria.” Foi então para a casa de um tio que era engenheiro agrônomo em Juiz de Fora e se preparar para fazer o vestibular para Química na UFJF.

Um dia foram visitar a escola em que seu tio tinha estudado, a Escola Técnica Superior de Lavras. Oswaldo já tinha estudado um pouco de Química Agrícola na escola técnica e tinha se entusiasmado na época. “Quando chegamos lá, vi um anúncio de inscrições abertas para o vestibular. Falei com o meu tio que talvez fosse bom tentar, ele pagou a inscrição e eu passei.”

Na primeira semana de aula Oswaldo percebeu que sabia mais Química que alguns professores, por causa da escola técnica. Começou a trabalhar no laboratório de Química Inorgânica e passou a ajudar o professor a preparar as aulas e coordenar as atividades de laboratório. “Resolvi que queria naquele momento começar alguma pesquisa minha. Estruturei lá então um experimento que era estudar a dureza da água de uma região que tinha muito calcário”, relembra o pesquisador.

José Oswaldo conta que o Brasil gastava muito naquela época com importação de fertilizantes e em função disso o governo lançou uma campanha visando o desenvolvimento de alternativas para os fertilizantes. “O potássio é elemento fundamental para a agricultura e o Brasil não tem reservas. Mas temos maciços imensos com silicato de potássio, são minerais que têm potássio, só que em concentração baixa”.

Já tendo estudado o assunto anteriormente, Oswaldo começou a fazer muitas perguntas ao professor, Fernando Bahia, sobre os possíveis aproveitamentos do silicato. E tanto perguntou que o professor convidou-o para ajudá-lo num projeto de pesquisa para estudar um silicato de potássio com grande ocorrência numa certa região de Minas, visando a sua utilização como fonte de fertilizantes.

Eles precisavam avaliar se as plantas eram capazes de aproveitar o potássio desse mineral. Foram então a Poços de Caldas coletar um pouco do solo, para misturar a ele um tanto de rocha com silicato moída, para ver como as plantas ali inseridas reagiriam. Mas o que viram é que as plantas não conseguiam usar aquele potássio.

“Aí fui atrás de professores de mineralogia de geologia e pedi que me mostrassem a estrutura do silicato. Aí vi que ele estava preso no meio de silício, ferro e cálcio e era necessário quebrar aquela molécula”. Oswaldo explicou que esta quebra pode ser realizada de diversas formas: quimicamente, usando um produto químico para dissolver a rocha; termicamente, usando uma energia física para romper a estrutura cristalina e mudar a forma; ou biologicamente, usando fungos que produzissem substâncias que atacassem aquele mineral e soltassem o potássio. “Escolhi esse caminho e foi assim que passei a estudar Microbiologia e Bioquímica dos solos.”

Nesta fase, Oswaldo passou a dar aulas de Química Orgânica, Inorgânica e Físico-química em sua cidade de origem, às sextas e sábados. Depois, sem ter sequer um mestrado, foi contratado para professor da Universidade.  Foi quando surgiu a oportunidade de fazer a pós-graduação fora. “Lá foi muito difícil, tinha a barreira da língua e eu tinha medo de não corresponder às expectativas”. Mas a curiosidade e a vontade de trabalhar com o desconhecido é que movem um cientista: em quatro anos e meio Oswaldo completou mestrado e doutorado pela Universidade da Florida.

A pesquisa desenvolvida na pós-graduação foi sobre sinais moleculares que as plantas produzem quando estão estressadas e desejam atrair para si um organismo mutualista, que estabelece uma relação simbiótica com ela, grudando nas raízes e ajudando-a a absorver água, nutrientes e tudo mais. Lá ele se juntou a um fisiologista de plantas e a um químico de produto naturais para desenvolver a pesquisa. “O segredo era captar essa substância sinalizadora, identificá-la e sintetizá-la. Foi o que fizemos”. O grupo conseguiu sintetizar essa sustância e patenteou um produto chamado mycronite.

Alguns anos depois, José Oswaldo voltou aos EUA, agora na Michigan State University, para fazer um curso de pós-doutorado. Seu objetivo era cultivar um organismo que na natureza só se multiplica na presença do hospedeiro vivo. “É um fungo que só fecha seu ciclo de vida numa raiz viva. O desafio era cultivar esse fungo longe da raiz.”

Em vez de trabalhar com a planta, Oswaldo trabalhava com células vegetais. “Quando punha uma célula vegetal com algum tipo de estresse junto com o fungo, ele crescia muito mais. Postulamos então que quando a planta estava estressada ela mandava um sinal para estimular o fungo a crescer na rizosfera, penetrar na terra e estabelecer a relação simbiótica.”

Quando estava nos Estados Unidos, Oswaldo confessa que se sentiu em alguns momentos incapaz. “Minha formação na graduação foi muito eclética e nos EUA o ensino é verticalizado, mais aprofundado. Quando a disciplina era de aprofundamento eu sofria e quando era de visão geral – de agricultura, meio ambiente – eu ia bem.” Mas ao final do curso recebeu o Award for Excellence in Graduate Studies en Soil Science for the Year of 1983, concedido anualmente aos doutorandos de maior destaque naquele programa da Universidade da Flórida.

Para ele, inteligência é a capacidade de lidar com o desconhecido e em alguns momentos ele achou que sua capacidade era limitada. “Mas aos poucos eu fui pegando, fui observando e hoje tenho plena certeza de que não é preciso ser um gênio para ser um cientista. O que é preciso é ter um sonho, acreditar nele, ter alguns fundamentos, entender que a ciência é constituída de filosofia e de métodos”. Oswaldo diz que se o estudante for capaz de entender e exercitar isso, sendo persistente e tendo capacidade de formulação, pode ir longe. “Hoje em dia ninguém descobre nada sozinho.”

Recebeu o Prêmio Santista 2000, por sua contribuição à Biotecnologia Agropecuária. No mesmo ano de 2000 tornou-se membro da American Association for the Advancement of Science (AAAS). Em 2001 foi eleito membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e recebeu o título de Comendador Antônio Secundino de São José, outorgado pelo Governo do Estado de Minas Gerais.

Em 2003 foi eleito membro da Academia de Ciências do Mundo em Desenvolvimento (TWAS) e em 2007 recebeu o Prêmio Mérito Universitário, outorgado pelo Conselho Universitário da Universidade Federal de Lavras. O cientista acha que chegou muito além do que esperava e até do que merecia, em suas palavras. E José Oswaldo Siqueira considera que seu trabalho hoje como dïretor de projetos especiais no CNPq “é uma grande oportunidade de servir ao país.”

Francisco César de Sá Barreto, físico

1940, Fortaleza, Ceará. De famílias simples, os pais de Francisco César de Sá Barreto não tiveram instrução universitária. Em meados dos anos 40, a família mudou-se para o sul do país e após alguns anos fixou-se em Belo Horizonte, Minas Gerais. Estudou no Colégio Estadual de Minas Gerais, de muito prestígio naquela época.

Segundo César, naquela época só se fazia Medicina, Engenharia ou Direito. Ele começou a trabalhar muito cedo, aos 15 anos, numa seção de Engenharia Sanitária do antigo Serviço Nacional de Malária. “No começo eu copiava mapas, fazia desenho cartográfico. Depois comecei a fazer desenhos topográficos. Mas meus colegas mais velhos já eram alunos da faculdade de Engenharia.”

Ele conta que gostava muito de Matemática, mas de Física não gostava porque o professor era muito ruim no colégio. Em Química não tinha muito interesse. Só sabia que não queria trabalhar com Engenharia. No último ano do curso científico, correspondente ao ensino médio de hoje, César buscou orientação vocacional para fazer sua escolha de carreira. “Existia em Belo Horizonte um Serviço de Orientação e Seleção Profissional com o Prof. Pedro Parafita de Bessa, psicólogo da UFMG. Era difícil conseguir vaga, era um processo longo. Escrevi minha biografia e fiz diversos outros testes e atividades.”

“Numa entrevista final com o orientador ele me disse que arquitetura não seria uma boa opção, embora eu desenhasse bem. Ele falou sobre os tipos de inteligência e não fechou em nenhuma carreira específica, o que fortaleceu minha confiança nele, mas sugeriu Ciência – ‘a Física, por exemplo, porque não?’. Eu pensei que a Física usa a linguagem da Matemática, de que gostava, então fui ver onde é que se fazia Física e fiz o vestibular”, conta César.

Entrou na graduação na UFMG em 1962, foi aprendendo e gostando. Teve a opção de ir pra Brasília, após graduar-se em 1965, fazer a pós-graduação com o Prof. Jayme Tiomno, mas veio a crise de Brasília e o seu potencial orientador voltou para o Rio de Jaeniro. “Fui me encontrar com ele, que deixou claro que não tinha nada para me oferecer naquele momento, que não sabia o que ia acontecer com ele e que eu deveria procurar outro caminho”, narra Sá Barreto.

Começou então a cursar o primeiro mestrado da UFMG, em 1966, criado pelo Prof. Ramayana Gazzinelli. Através de um apoio da Fundação Rockefeller, César conseguiu uma bolsa para fazer doutorado nos EUA, em 1967. “Fui para Pittsburgh, onde na época havia uma boa comunidade científica brasileira, era um ambiente bom. Era difícil a comunicação na época, os contatos com o Brasil eram poucos”, lembra Sá Barreto. Ele queria trabalhar com ressonância magnética, uma área de pesquisa que o Prof. Ramayana queria implementar na UFMG, para que quando voltasse pudesse dar continuidade ao seu trabalho teórico dentro de um grupo experimental.

Nesta fase, porém, César teve a oportunidade de ir para a Universidade da Califórnia estudar aquilo que ele realmente queria – Dinâmica de Sistemas Magnéticos na área de Física de Matéria Condensada. Ele passou sete meses lá, defendeu a tese em Pittsburgh e voltou pra Minas. “Quando cheguei aqui, em 1971, a Física Teórica no Brasil ainda era muito pequena, não tinha quase nada. Acabei mudando de área porque, para criar massa crítica, resolvemos fazer na UFMG um grupo voltado para o estudo de Sistemas Ferroelétricos, que tinha físicos teóricos e experimentais. Cada um abriu mão de suas pesquisas próprias para fortalecer essa área e o departamento ficou conhecido na época principalmente por causa desse grupo, que durou dez anos”, rememora o pesquisador. Sua principal linha de pesquisa, desde então, é a Mecânica Estatística de Transições de Fase.

César Sá Barreto sempre deu aulas, tanto na graduação quanto na pós-graduação. Orientou dezenas de mestres e doutores, tendo exercido diversos cargos na universidade, inclusive o de reitor. Atuou também na Sociedade Brasileira de Física e em órgãos do governo ligados à sua área, prestando consultoria. Já publicou dezenas de artigos, proferiu dezenas de seminários no país e no exterior e participou de inúmeras conferências nacionais e internacionais.

Atualmente é Professor Emérito da UFMG, onde já foi pró-reitor de pesquisa e reitor. Foi também secretário de Educação Superior do Ministério da Educação e presidente da Sociedade Brasileira de Física, além de ter sido membro de diversos Conselhos e Comitês ligados ao governo.

Recebeu a Medalha Jubileu do CNPq em 1981, a Medalha da Universidade Federal de Santa Maria em 1994, o Prêmio Fundepda UFMG em 1996, quatro Medalhas do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração, a Medalha Santos Dumont Categoria Ouro e a Grande Medalha da Inconfidência, ambas em 1998; a Grande Medalha do Mérito Educacional de Minas Gerais no ano seguinte; a Medalha Gustavo Capanema do Governo de Minas Gerais em 2000, assim como a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico do Presidente da República do Brasil, no mesmo ano; e o título de Grande Oficial da Ordem Nacional do Mérito Educativo em 2002, ano em que também tornou-se Cidadão Honorário de Belo Horizonte.

Débora Foguel, biomédica

Nascida em 1964, no Rio de Janeiro, Débora Foguel conta que sua escolha pela Biologia foi fortemente influenciada por um professor do ensino médio, Fernando Gewandsznajder, do Colégio Eliezer Steinberg. “Com leveza e competência, ele fazia de suas aulas algo agradável, lúdico, onde aprendíamos sem perceber”.

No momento da escolha pela Biologia, não tinha clara ainda a possibilidade de ser cientista. Pensava em ser professora, de preferência com o mesmo sucesso do professor que a inspirou. Já no curso de Biologia da UFRJ, percebeu, logo no início, que o estágio de iniciação científica era fundamental para a formação de um biólogo, mesmo que seu desejo fosse o de enveredar pela carreira do magistério. “Ensinar ciência sem nunca tê-la praticado me parecia estranho e, até hoje, não compreendo como essa vivência não faz parte do currículo de qualquer licenciando”, comenta Débora.

Sua primeira incursão como cientista foi na área de Genética. Dessa tentativa guarda certa frustração, embora hoje, muitos anos já transcorridos, ela poderia dizer que talvez tenha sido sua grande sorte. Débora conta que após muito estudar para conseguir uma vaga no Laboratório de Biologia Molecular de Plantas da UFRJ, área em explosão no Brasil na década de 80, fracassou durante entrevista classificatória por não saber o número correto de cromossomos do tomate. “Essa experiência frustrante me deixou triste e pensando se seria mesmo a Biologia minha vocação… Minha mãe, preocupada com meu desânimo, sugeriu que eu conversasse com o Dr. Haity Moussatché, um grande cientista e pai de uma de suas melhores amigas.”

Lá foi ela visitá-lo em sua residência na Gávea. Ali, naquele encontro que durou uma manhã, Débora recebeu uma injeção de ânimo e amor pela ciência. “O mundo que se desfazia à minha frente, de repente, voltava a fazer sentido e tudo parecia tão óbvio! Até hoje guardo com carinho uma carta de recomendação escrita de próprio punho pelo Dr. Haity que me recomendava a qualquer laboratório de pesquisa em que eu desejasse trabalhar. Essa carta, mais do que me abrir portas, abriu de novo meu gosto pela Biologia e pelo desejo de conhecer a tal Ciência. Devo a ele ter prosseguido nesse caminho”, conta a pesquisadora.

Logo em seguida, Débora conseguiu estágio de iniciação científica no laboratório do Prof Ricardo Chaloub, no Instituto de Bioquímica da UFRJ, onde seguiu depois cursando o mestrado e o doutorado na área de fotossíntese. “Quando comecei, ele estava iniciando uma nova linha de pesquisa com cianobactérias e vivenciei ao seu lado a construção de um novo grupo, de uma nova linha de pesquisa e de certa forma de uma carreira inteira. Nessa época eu já era casada, tinha 20 anos e uma linda filha.”

Paralelamente ao curso de Licenciatura, Débora fez também o Bacharelado em Genética, que era o que mais se aproximava daquilo que realmente a tinha encantado no campo da pesquisa, a Bioquímica. “Acabei nunca lecionando em uma escola e experimentando aquilo que o Prof. Fernando fizera durante toda a sua vida. Optei pela pesquisa, embora ainda hoje me encante quando entro em sala de aula.”

Durante o doutorado, Débora passou quase dois anos na Universidade de Illinois, onde conheceu o Prof. Gregório Weber que a recebeu em seu laboratório e com quem construiu forte vínculo. “A seu lado aprendi a fazer ciência e mais importante, aprendi uma forma de se fazer ciência onde o que mais importa é a beleza do dado em si.”

Ela estudava transferência de energia entre os componentes fotossintéticos de cianobactérias. “Me deparei com algumas proteínas ‘mal comportadas’ que agregavam no tubo de ensaio. Esse fato me despertou para uma área nova que surgia e que hoje apresenta enorme relevância, uma vez que proteínas ‘mal comportadas’ estão envolvidas em patologias como Parkinson e Alzheimer, que hoje fazem parte das minhas preocupações científicas.”

Desde 1997, Débora chefia o Laboratório de Agregação de Proteínas e Amiloidoses do Instituto de Bioquímica Médica (IBqM) da UFRJ, além de ser diretora desse Instituto desde 2007. Desde 1998, é editora científica da Revista Ciência Hoje. Assumiu diversos cargos na universidade e tem participado como conferencista convidada de vários eventos nacionais e internacionais.

Débora Foguel tem prestado contribuição expressiva no campo da Biologia Estrutural e participado de diversas iniciativas na área de Educação e Difusão de Ciências, com especial destaque aos Cursos de Férias oferecidos regularmente pelo IBqM a professores e alunos das redes públicas e privadas de ensino. “Hoje, olho para trás e vejo o quão importante são para um cientista as pessoas que pela sua vida passam… Também vejo hoje o que um tomate pode fazer com a carreira de uma pessoa”, brinca a pesquisadora.

Aron Simis, matemático

Recife, Pernambuco, ano de 1942. Nasce Aron Simis, filho de pais emigrados de Iednetz, um ponto minúsculo na então Romênia, depois Rússia e hoje República da Moldávia. Sua infância e adolescência foram como as de outras crianças. Na escola, sempre foi aluno com excelentes notas e era admirado e elogiado pelos mestres e pelos mais velhos. “Isto não me enchia de vaidade, pois me parecia natural querer saber de tudo, aprender tudo e ser responsável com as obrigações escolares. Geografia e Matemática eram tão atraentes quanto musica, cinema e gibis”, conta Aron.

Seus pais, imigrantes, não passaram do primário. Na família não havia cientistas – na verdade, pouquíssimos cursaram universidade. Não sendo filho de pais intelectuais, não tinha qualquer preconceito sobre o que deveria ser classificado como relevante ou irrelevante pelos padrões usuais desta classe.

Só se aproximou da Matemática nos últimos anos do curso cientifico, que correspondia ao ensino médio de hoje. A motivação surgiu através de um colega de turma, “aluno fraco, inteligência mediana que, no entanto, portava diariamente sob a axila um livro de Matemática escrito por um engenheiro-militar, que era moda na época. O colega não sabia resolver os problemas do compêndio e me perguntava. Eu também não sabia, mas fiquei fascinado.”

Aron ainda tinha dúvidas sobre a carreira a seguir: estava entre a Arquitetura, por causa da sua habilidade para desenhar, e a Matemática. Acabou prestando vestibular para dois cursos, em faculdades diferentes – Matemática e Filosofia – pois, segundo ele, achava que poderia consertar o mundo. Seu pai aceitou com indiferença suas escolhas, pois esperava um filho engenheiro.

Graduou-se em Matemática pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), fez mestrado e doutorado na Queen’s University, no Canadá. Depois cursou um pós-doutorado na Brandeis University, nos EUA, e foi professor visitante no Max-Planck-Institut für Mathematik, na Alemanha. Para todas essas viagens Aron conseguiu apoio financeiro de instituições estrangeiras, como a Fundação Guggenheim e a Sociedade Japonesa para o Progresso da Ciência.

Sua área de interesse abrange a Geometria Algébrica, a Computação Algébrica e a Álgebra Comutativa. Colabora há muitos anos com algebristas alemães, americanos e italianos e já organizou diversas reuniões científicas internacionais. Foi Pesquisador Titular do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e eleito membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da Academia de Ciências dos Paises em Desenvolvimento (TWAS). Recebeu a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico do Presidente da República do Brasil em 2002. Atualmente é Professor Titular da Universidade Federal de Pernambuco.

O pesquisador conta que seu fascínio pela Matemática estava – e está – na simplicidade do seu conteúdo, sempre envolvendo o mínimo possível de dados, todos inerentes a sua própria estruturação interna. “Pode-se dizer que eu nunca teria sido um excelente engenheiro ou sequer um genuíno matemático aplicado preocupado com a implementação em produtos observáveis. O que realmente me encanta é saber que fiz uma escolha razoavelmente satisfatória, embora não fosse isto dedutível por teorema”, brinca Aron.

Aluízio Rosa Prata, infectologista

O mais velho de seis irmãos, Aluízio Rosa Prata nasceu em 1º de junho de 1920, em Uberaba, Minas Gerais, numa família de fazendeiros. Aos oito anos foi encaminhado para o colégio interno – o Colégio Marista -, que tinha uma disciplina muito rígida. “Eu sofri muito, tinha que acordar cedo, tomar banho frio, antes eu vivia solto lá na fazenda”, conta Aluízio.

No início ele não era bom aluno, não gostava, não estudava. Mas com o tempo foi vendo que ia ter que ter uma profissão, mudar, ia ter que dar um rumo para a vida. Quando terminou o ginásio conversou muito com um parente do Rio de Janeiro, que lhe apresentou diversas opções, e lá se foi Aluízio, com 17 anos, para o Rio de Janeiro. “Tive um choque muito grande, a vida no Rio era muito diferente, tinha saudade de casa”, confessa o pesquisador.

Ele conta que de início, via os amigos do seu tio, profissionais bem sucedidos, alguns médicos, mas não achava que tivesse muita vocação pra Medicina, que pudesse ser igual a eles. E se preocupava em apresentar algum retorno, alguma justificativa para estar no Rio de Janeiro, pois seu pai não era muito rico, mas lhe mandava religiosamente uma mesada. “Meu pai dava muito apoio para tudo que a gente queria fazer, quando eu fui embora ele disse pra eu experimentar seis meses, e que voltasse se não desse certo.”

Fazia o Colégio Universitário, para entrar na universidade, ainda sem saber o que cursar. Com o tempo, porém, foi tomando gosto pelo estudo, e quando decidiu entrar para Medicina foi logo que pôde para o pronto socorro, para a parte prática. “Já estava disposto a estudar bastante, vi que eu era capaz.”

No Rio trabalhou em vários hospitais, já tinha gosto pelo estudo e pensava em se dedicar mais às doenças do Brasil, como a esquistossomose e a doença de Chagas. “Eu já estava formado, clinicava na Marinha, já tinha feito concurso, e pesquisava ao mesmo tempo. Conversava muito com pessoas que tinham voltado de Mato Grosso e achei que seria um lugar interessante para começar a vida. Fiz o concurso e fui para Ladário, em Corumbá.”

Aluízio estudava muito, assinava 15 revistas médicas internacionais, estava sempre se atualizando e foi se dedicando cada vez mais às doenças infecciosas. “Lá tinha muita sífilis e eu me dediquei bastante a isso. Mas fiquei lá só dois anos, era ruim demais. Um calor insuportável, os outros médicos muito competitivos com quem vinha do Rio, enfim, vi que lá não ia ter muita oportunidade”, concluiu o ousado pioneiro.

Conseguiu ser transferido de volta para o Rio de Janeiro, montou um consultório e clinicava em três hospitais. Conheceu então os irmãos José e Hélio Pellegrino, médicos mineiros como ele, que gostavam de fazer pesquisa, e se interessou pela área. “Achei que eu deveria sair do Rio e achar um lugar que tivesse mais condições de estudar o que me interessava. Estava entre amebíase, onde o forte era no Pará, e esquistossomose, forte na Bahia, que foi para onde eu decidi ir”, recorda Prata. E lá ele descobriu do que realmente gostava.

“Quando cheguei na Bahia, vi que o pessoal não gostava de trabalhar com esquistossomose porque tinha muito, eles gostavam de doenças raras. Então eu me envolvi e me tornei representante da Bahia em diversas reuniões nacionais sobre esquistossomose.” Ele mesmo fazia os exames de fezes, já tinha então 150 doentes e vários resultados. Foi representar a Bahia numa reunião em São Paulo, e lá se abriu um outro mundo para ele. “Eu conheci lá os melhores profissionais do Brasi que trabalhavam com esquistossomose, o único fraco era eu. E eu decidi que ia chegar lá também. Foram dois dias com eles lá  e então eu vi que era isso que eu queria da minha vida”, contou Prata.

O médico trabalhou muitos anos na Bahia, outros tantos em Brasília, e depois voltou para Uberaba. Tornou-se professor catedrático de Doenças Tropicais e Infecciosas e fundou diversos centros de pesquisa e cursos de pós-graduação na área, em todos os estados em que trabalhou. Teve diversos cargos importantes nas universidades e em comissões e órgãos do governo, representou o Brasil na Unesco em sua área e atuou em diversos organismos internacionais, pois tornou-se um dos maiores especialistas mundiais em esquistossomose, atuando inclusive na Organização Mundial de Saúde (OMS). Foi editor de diversas revistas científicas especializadas e fundou a Sociedade Latino Americana de Medicina Tropical.

Aluízio Prata recebeu a Comenda da Ordem do Rio Branco do Ministério das Relações Exteriores (1974), o Prêmio Alfred Jurzykovski da Academia Nacional de Medicina (1980), a Medalha Capes 50 anos (2001), a Medalha da Ordem do Grande Mérito da Saúde do Governo do Estado de Minas Gerais (2002) e, no mesmo ano, a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico do Presidente da República do Brasil. E ainda orienta alunos na Faculdade de medicina do Triângulo Mineiro, em Uberaba.

Alaíde Braga, química

Minas Gerais, cidade de Morada Nova, 1941 – ano em que nasceu Alaíde Braga, a mais velha de sete irmãos. Segundo ela, esperavam que se tornasse professora primária, era o habitual para uma moça como ela. “Mas eu não queria ficar ali naquela cidade, limitada. Eu sonhava, queria conhecer o mundo, então a primeira coisa era fazer um curso superior. Meu pai de início estranhou, mas deixou.”

Foi fazer Farmácia porque sempre teve curiosidade sobre os medicamentos e quando entrou para a faculdade foi a primeira bolsista de Iniciação Científica da UFMG, orientada pelo Prof. Aloísio Pimenta, uma figura muito importante em Minas. “Foi ele quem promoveu a reforma da universidade criando os institutos, fez a mudança da universidade para a Pampulha.”

Depois de acabar o curso de graduação, Alaíde tentou fazer o doutorado com o Prof. Otto Gottlieb em Brasília, mas era o ano de 1964 e veio a revolução. “Ainda conseguimos – uma turma de professores de todas as partes do país que havia se reunido para trabalhar com o Prof. Gottlieb – instalar o primeiro laboratório de Química da Unb, íamos dar início ao curso de pós-graduação. Mas o clima era muito tenso, todo dia era notícia de que a polícia entrou na universidade, que fulano foi preso, que sicrano foi preso, então houve uma reação por parte dos professores, uma demissão coletiva e o grupo do Prof. Otto se dissolveu”, conta a professora.

Ela, como boa mineira, voltou pra casa. Já havia sido criada a pós-graduação na UFMG, onde Alaíde defendeu o doutorado com orientação do Prof. Otto, terminando em 1967, já na linha de Química de produtos naturais. “Existe uma cadeira muito antiga no curso que se chama Farmacognosia, que é o estudo de plantas como medicamentos. A parte de síntese foi para outra disciplina chamada Química Farmacêutica. E eu me fascinei por esse aspecto, de partir de uma planta qualquer, lidar com o acaso, a surpresa, identificar os extratos que se tira dela, se consegue uma quantidade maior ou menor e então se analisa sua química. O que eu queria mesmo era descobrir em cada uma sua utilidade, mas isso só foi possível muito depois.”

Em 1968 conseguiu uma bolsa para fazer o pós-doutorado na Universidade de Sheffield, na Inglaterra, trabalhando em síntese orgânica e estudos conformacionais por ressonância magnética nuclear. Voltou para a UFMG um ano depois, onde já foi professora de Química Orgânica na Escola de Engenharia e desde 1991 é Professora Titular de Fitoquímica, na Faculdade de Farmácia.

Alaíde Braga Já formou mais de 60 mestres e doutores, e foi uma das criadoras do curso de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da UFMG. Sua principal linha de pesquisa é a Química de Produtos Naturais, abordando temas de Fitoquímica, Síntese de Substâncias Naturais Biologicamente Ativas, Estudo Químico-Biológico de Plantas Medicinais, em colaboração com vários pesquisadores da área biológica. Colabora com pesquisadores estrangeiros da Alemanha, da Colômbia e dos EUA.

Hoje está aposentada, mas como foi homenageada com o título de Professora Emérita da UFMG continuou com seu laboratório, que cresceu bastante recentemente graças a parcerias com instituições estrangeiras conseguidas pela Professora Alaíde. Seu mais novo sonho agora é a criação de um Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento de Fármacos a partir da Biodiversidade Brasileira.

“Atualmente, a Ciência brasileira avançou bastante, os cursos de pós-graduação foram bem ampliados, portanto já garantimos a formação de recursos humanos. Já há alguma interdisciplinaridade, mas muito modesta para levar a um produto. Para transformarmos a biodiversidade brasileira e os resultados de pesquisa que temos em produto, precisamos de uma instituição multidisciplinar dedicada a isso, integrando a universidade e a empresa. Senão, o Brasil continuará tendo a riqueza em suas mãos e deixando-a escorrer pelos dedos”, finaliza a pesquisadora.

Bertha Becker, geógrafa

Bertha Becker nasceu em 1930, no Rio de Janeiro. Sua irmã mais velha cursava História e Geografia, o que era uma referência para a caçula. Mas escolheu estudar Geografia porque queria conhecer o mundo, viajar. E pesou muito a influência dos pais, que eram imigrantes da Europa Oriental – a mãe da Ucrânia e o pai da Romênia. “Aquilo de cruzar o Atlântico e vir para a América era lidar com a fronteira, com o desconhecido, com a possibilidade de construir coisas novas. Isso combina com a Amazônia”.

Cursou o Bacharelado e a Licenciatura em Geografia e História na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FNFi/UFRJ), no início da  década de 50. É doutora e Livre-docente pelo Instituto de Geociências da UFRJ e pós-doutora pelo Department of Urban Studies and Planning, MIT, nos EUA. Desde 2000 é Professora Titular aposentada da UFRJ e atua como consultora de diversos ministérios: da Ciência e Tecnologia (MCT), das Relações Exteriores entre eles. Também assessorou o ex-ministro Roberto Mangabeira Unger no  Plano Amazônia Sustentável.

Bertha estuda a expansão da fronteira móvel da agropecuária no Brasil desde a década de 60. Começou com o crescimento da pecuária em torno do Rio de Janeiro e São Paulo fazendo pesquisa de campo, conversando com os fazendeiros. Isso foi na década de 70 e ela acompanhou então o avanço da pecuária para Goiás e dali para a Amazônia. “As pessoas pensam que isso é novo, mas não é, a expansão das fronteiras da pecuária na direção da Amazônia tem 50 anos”.

Bertha conta que a pecuária é muito característica e antiga no Brasil. “Pecus significa dinheiro e a pecuária extensiva é um investimento que dá pouco trabalho, se desloca sozinho e é de alto rendimento no Brasil. Juscelino Kubitschek teve grande influência nesse crescimento porque até sua gestão só existiam matadouros. Com a criação de estradas e o frio industrial surgiram os frigoríficos.”

A pesquisadora conta que começou a estudar as fronteiras no regime militar, que em sua opinião teve aspectos muito positivos. “O principal foi o desenvolvimento das telecomunicações, que possibilitou inclusive o crescimento dos movimentos sociais”.

Com relação à assessoria que dá em assuntos da Amazônia, Bertha acha que hoje o mundo mudou, o Brasil mudou. “Não podemos ficar só com áreas protegidas. Primeiro porque a proteção já não protege mais e o desflorestamento continua. E só proteger não gera renda e trabalho, que é o fundamental para a região e para o país. O que precisamos é produzir para preservar.”

Bertha diz que em seus muitos anos na universidade, formando mestres e doutores, ela conclui que o que caracteriza um cientista é a paixão pelo que está estudando “porque é isso que preenche a vida.” Considera também fundamentais a perseverança e a disciplina, a capacidade de insistir quando as coisas não dão certo. Trabalhando com a Geopolítica da Amazônia, ela sabe o que é isso.

Adalberto Luis Val, biólogo

Seu pai tomava conta de uma fazenda de plantação de café, e desde menino Adalberto Luis Valtrabalhava na roça. Nascido em Campinas, no interior do estado de São Paulo, no ano de 1956, o biólogo conta que era muito apegado aos animais e que adorava pescar.

Ninguém estudava por lá porque para fazê-lo era necessário enfrentar uma longa distância, mas seu pai fez questão de colocá-lo junto com seus três irmãos na escola. “Quando eu comecei, no primário, descobri que gostava de estudar porque ali eu conseguia explicações para as coisas que eu via e vivia na fazenda”, conta Adalberto.

Quando terminou o ginásio resolveu se aprofundar nesses assuntos e foi fazer o Colégio Técnico Industrial Conselheiro Antonio Prado, em Campinas. “Escolhi o curso técnico de Bioquímica e me apaixonei por aquilo tudo, eu conseguia explicar cada vez mais e melhor tudo que envolvia meu cotidiano na fazenda.”

Teve então a oportunidade de trabalhar em São Carlos com o Prof. Arno Rudi Schwantes, estudando peixes. Adalberto gostava muito de pescar e se interessava por como os peixes viviam em seus ambientes. Decidiu ampliar seus conhecimentos cursando a graduação em Biologia em Ribeirão Preto. “Mas antes de terminar, o Prof. José Galizia Tundisi me convidou para montar um laboratório de peixes em Manaus, em 1979, e aí me apaixonei e nunca mais saí de lá. Eu acho que nunca eu teria feito a carreira que fiz – apaixonante, vibrante – se fosse em outro lugar.”

Adalberto é um entusiasta da Amazônia. “Quero realmente ver a Amazônia se desenvolvendo mesmo, de forma integral, com inclusão social. Do ponto de vista científico, trabalhar na Amazônia é especial, tudo que você toca é novo, em todas as viagens de campo descobrimos ou uma nova espécie de peixe ou uma nova maneira de os peixes se relacionarem com o ambiente, é muito impressionante”, destaca o pesquisador.

Atualmente, Adalberto Val é diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), onde estuda desde 1981 a respiração e as adaptações dos peixes da Amazônia às modificações do meio ambiente, tanto aquelas de origem natural como aquelas causadas pelo homem. Doutorou-se em 1986 e entre 1990 e 1992 cursou pós-doutorado na Universidade da Columbia Britânica, no Canadá.

Sua contribuição científica inclui mais de uma centena de publicações. É membro atuante da Sociedade Brasileira de Ictiologia (SBI) e de várias outras entidades nacionais e internacionais da área. Participa de inúmeras comissões de trabalho do governo e de organismos internacionais como consultor. É membro do corpo editorial de várias revistas nacionais e estrangeiras. Orientou quase 100 alunos, entre iniciação científica, mestrado e doutorado, além de ter recebido diversos colaboradores em nível de pós-doutorado.

Em 2000, na Inglaterra, foi incluído na Legião de Honra da American Fisheries Society, Physiology Section, por sua contribuição científica; em 2002, recebeu a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico e, em 2004, recebeu o Award of Excellence da sessão de Fisiologia da American Fisheries Society.

Falando sobre as características de um potencial cientista, Adalberto conta o que ele mais observa e admira. “Não dá para imaginar que se vai fazer um experimento e ele vai dar certo na primeira vez. Então a curiosidade associada à persistência para buscar a informação robusta de forma definitiva é o que constrói uma carreira sólida”, conclui o cientista.