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Apesar da contribuição do pensador Auguste Comte para tornar o método científico mais abrangente, incluir o estudo do homem no campo das Ciências não ocorreu de maneira pacífica. Até hoje, ainda existe o debate sobre se as Ciências Sociais e Humanas podem mesmo ser consideradas Ciências, uma vez que não apresentam a mesma objetividade das Ciências Naturais. Wilhelm Dilthey (1833-1911) foi um dos estudiosos que defendeu uma autonomia metodológica das Ciências do Homem ou Ciências do Espírito, como chamava o filósofo, a partir de uma distinção entre explicar e compreender.

Para Dilthey, o método científico físico-matemático corresponderia a um conhecimento explicativo, enquanto o método científico histórico estaria vinculado a um conhecimento compreensivo. Assim, as Ciências do Espírito abordariam as manifestações da vida e as objetivações do homem no mundo social e histórico, e o principal modo de acessá-la seria através da compreensão.

O sociólogo e Acadêmico Simon Schwartzman explica esse conceito da seguinte maneira: "pensemos em um antropólogo buscando relacionar as crenças religiosas de uma sociedade com seu sistema familiar, ou um historiador tratando de entender o que levou um país para a guerra ou a uma revolução social, ou ainda um crítico literário buscando interpretar a obra de um autor em função da cultura de seu tempo, ou um jurista buscando entender as normas do que é permitido ou proibido em determinadas sociedades. Em todos estes casos, o pesquisador busca interpretar ou compreender o que está estudando em função do contexto mais geral da sociedade, da cultura ou do tempo histórico de que está tratando. Seu método é, em outras palavras, "compreensivo" - não basta descrever o objeto de estudo, ou relacioná-lo com outros, é necessário entender o seu sentido".

Schwartzman afirma que, da mesma maneira que as Ciências Naturais, as Ciências Humanas e Sociais fazem uso de observações sistemáticas, modelos matemáticos, análises estatísticas e experimentos, ao tratar de fenômenos sociais - instituições, movimentos populacionais, comportamentos, atitudes, preferências, conflitos, tecnologias.

Segundo o sociólogo, Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) adaptaram o evolucionismo (desenvolvido, a princípio, para as Ciências Naturais) para a interpretação da história e das sociedades, supondo que estas passavam de fases mais primitivas e atrasadas para outras mais modernas e desenvolvidas. Essa idéia marcou boa parte da produção das Ciências Sociais e das humanidades nos últimos 200 anos. Já o sociólogo, historiador e economista Max Weber (1864-1920) acreditava que as sociedades deviam ser interpretadas a partir da cultura e da religião das principais civilizações e de comparações históricas. Além disso, ele dizia que a definição de modelos de organização social e política deveriam servir de referência para a análise empírica de casos históricos concretos, criando, assim, uma "Sociologia compreensiva".

Schwartzman diz, no entanto, que foi Émile Durkheim (1858-1917) quem inaugurou a Sociologia como Ciência Social à maneira das Ciências Naturais, ao defender que era preciso olhar os fatos sociais "como se fossem coisas" e fazer uso das estatísticas para verificar as relações entre diferentes fenômenos sociais. O Acadêmico afirma que, enquanto isso ocorria na Sociologia, no início do século XX, outras inovações se passavam na Economia e na Psicologia: "Cada vez mais, as estatísticas passaram a ser utilizadas para descrever e depois interpretar as relações entre fenômenos sociais medidos de forma sistemática, seja pelos institutos de estatística governamentais, seja através de pesquisas por amostragem".

Porém, de acordo com Schwartzman, apesar de grandes avanços nas Ciências Sociais de tipo empírico, formal e quantitativo, as interpretações de tipo histórico e cultural não foram abandonadas. Assim, um profissional precisa saber conviver com os dois lados - ou seja, deve ser familiarizado com o uso da matemática e da estatística, com a obtenção e análise de dados e o trabalho com experimentos, além de ter conhecimentos históricos, a fim de entender processos de grande duração e amplitude e comparar resultados atuais com os do passado.

Na prática, as Ciências Sociais e Humanas utilizam o método na investigação científica sobre a realidade social, ou seja, na aplicação de técnicas de pesquisa científica a situações e problemas concretos em um contexto social, para os quais se buscam respostas e novos conhecimentos.

Segundo a "Teoria da Prática", do cientista social Pierre Bourdieu (1930-2002), essa investigação científica significa "ir ao cotidiano, questionar o banal para nele ver não o imediato e o banal, mas as grandes estruturas; significa pesquisar histórias de gente comum, das ditas camadas subalternas, sua trajetória, seu cotidiano, entrevistá-las, para assim analisar o significado real das macroestruturas (...)", conforme é descrito no estudo Metodologia das Ciências Sociais: elementos para um debate, da professora Selene Herculano.

O Método Científico

Pensamento positivista x pensamento complexo

 História do método científico

Um exemplo de uso do metódo científico